domingo, 10 de junho de 2012

Sturgeon e os Bárbaros



Quem acompanha este blog há de se lembrar de uma postagem antiga, sobre essas criaturinhas pusilânimes que ululam e pululam na internet, chamadas “trolls”. Mais recentemente, outra publicação sobre os “pobres de espírito”. Bem, pois considere esta publicação atual, fiel leitor, como a terceira parte da saga.  

     Talvez eu já tenha mencionado aqui Theodore Sturgeon, escritor de ficção científica falecido nos anos 80, autor dos roteiros de episódios célebres de Star Trek (TOS), como “Shore Leave” e “Amok Time”. Esse homem um dia pronunciou a preciosa frase que viria a ser imortalizada como a “Lei de Sturgeon”. Segundo ele, no que se refere à indústria cultural, “noventa por cento de tudo é lixo”.

     Produtos culturais surgem de mentes humanas. Seria um erro, entretanto, supor que, considerando os produtos finais, 90% dessas mentes também sejam lixo. Qualquer mente criadora tem seus bons e maus momentos, de acordo com a competência e a disposição da musa, mas ninguém é 100% feliz na criação. Alguns diriam que nem Deus acertou sempre, se pensarmos nos dinossauros, nas baratas e no jiló. O problema é quando algumas mentezinhas insistem em engrossar a fila pouco meritória dos 90%, e o fazem às vezes por incompetência, mas na maioria das vezes por razões menos nobres ou desculpáveis.

     Aquela fatia do fandom (grupo de fãs que adoram e discutem ficção científica, fantasia ou terror, e seus ambientes herméticos de convivência) que lida com a literatura fantástica (aka “litfan”) é composta, em sua maioria, por nerds. Não vou cair na tentação de dissecar aqui os tipos de nerd, porque já existe neste blog um tópico sobre isso. Mas, de qualquer forma, a visão que ordinariamente se tem de um nerd inclui, entre outras coisas, sua índole reflexiva e pacífica. Não, esqueça Columbine e outras distorções similares do Primeiro Mundo, vamos falar do “nerd normal”, se é que existe isso. Somos, na maioria, doidos mansos. Eis porque encaro, a princípio com perplexidade, a atual onda de agressividade orquestrada por um pequeno, porém barulhento grupo de nerds, que se autonomearam “arautos da moral e da qualidade” dentro da litfan (“moral” e “qualidade”, bem entendido, de acordo com seu conceito, às vezes muito exclusivo e pessoal).

     Há pessoas, e aqui talvez possamos, sim, estabelecer um paralelo com Columbine, que passam seus dias carregando as pressões das dificuldades econômicas, do bullying, da frustração das próprias expectativas e desejos, e que extravasam tudo isso por trás do volante de um carro, transformando-se em verdadeiros homicidas em potencial sobre quatro rodas. Isso é muito comum. Não espere, porém, que alguns nerds reajam da mesma forma, mesmo porque alguns nem possuem (ou pretendem possuir) carro. Esse tipo peculiar de nerd age diferente, mas com o mesmo efeito final: cria um blog e sai descendo sua borduna não convidada em textos, e sobretudo em autores, que não façam parte de seu grupelho, que não se importem com ele, ou simplesmente não sejam do agrado pessoal de um ou outro desses pilares da decência de calças sujas. Dois sinais muito eloquentes podem ser observados com frequência nesse tipo de blog, que denunciam claramente a má intenção que move seus atores: o anonimato, recurso habitual dos covardes, e as impiedosas críticas a detalhes, no caso de autores, que absolutamente nada têm a ver com suas obras: defeitos físicos, peculiaridades comportamentais da vida pessoal, etc. O objetivo, obviamente, é destruir, ofender, diminuir, ainda que essas cabeças ocas depois repousem num travesseiro e se justifiquem, afirmando serem “agitadores das coisas”. Grandes coisas...

     Esses “nerds bárbaros”, ou “barbanerds”, não percebem que depõem contra si mesmos (aqueles que têm a decência de se identificarem, claro). Não são capazes de escapar de uma imagem de incompetência (não sei fazer, então destruo), mau caráter (não gosto, então humilho) ou pobreza de espírito (estou aqui para dizer umas verdades que ninguém diz). Verdades. OK...rs*

     Barbanerds nem sequer podem ser considerados legítimos amantes da litfan, pois em sua miopia de entendimento não percebem (ou pouco estão se lixando para) o fato de que estão prestando um desserviço a um gênero que já sofre para conquistar seu espaço no ambiente cultural brasileiro, sem precisar dessa gentinha promovendo a discórdia. Falta paciência, falta tolerância, mas falta, acima de tudo, bondade e humildade nessas pessoas, cuja sensação de triunfo, após um de seus ataques estúpidos, eu duvido que dure mais que um dia ou dois, substituída por um provável amargor de quem se sente uma pessoa ruim.

     Algum deles vai acabar lendo estas linhas e, com certeza, seus comentários a respeito serão algo como “essa panelinha está desesperada com nossas humilhações sucessivas...KKKKKKK”, ou partirão para ataques pessoais, proclamando a minha própria obtusidade, hipocrisia, ou alguma outra idiotice semelhante. Aguardem. Espiem. Espero que não demore, para que os fatos, mais que minhas insuficientes palavras, deem ao leitor a real medida do quanto, como disse Sturgeon, 90% de tudo é lixo. Em algumas mentes pouco favorecidas, parece chegar a 100%.

sexta-feira, 25 de maio de 2012



RESENHA – O MAPA DO TEMPO [Félix J. Palma]

FC ou não FC, eis a questão...

     “O que é ficção científica?” continua sendo uma das perguntas cuja resposta correta vale um milhão de dólares. Para qualquer definição dada, não demorará para que algum nerd devoto apareça, tirando da manga pelo menos um ou dois exemplos que, de alguma forma, fugirão da definição proposta, e ainda assim terão características que os dignifiquem para se candidatarem ao gênero. Talvez uma das definições mais completas, entretanto, que prima por sua simplicidade, foi-me oferecida pelo espanhol Félix J. Palma em seu romance “O Mapa do Tempo” (editora Intrínseca, 2010), ganhador do XL Prémio Ateneo de Sevilla em 2008. Palma define como “romance científico”, para usar uma terminologia mais adequada ao século XIX onde se desenrola sua história, "qualquer história fantástica que tentasse se justificar por meio da ciência”. Salta aos olhos uma nova pergunta: “O Mapa do Tempo” é ficção científica?...

     O romance nos é apresentado na forma de um fix-up em três partes. Na primeira, o torturado jovem londrino Andrew Harrington procura uma forma de voltar no tempo para salvar a vida de Marie Kelly, a mulher por quem era perdidamente apaixonado e que foi a quinta vítima do serial killer conhecido como “Jack, o Estripador”. Curiosamente, essa mesma moça foi personagem de uma das noveletas mais queridas de minha própria lavra, “Os Primeiros Aztecas na Lua” (coletânea Vaporpunk, editora Draco, 2010). Para esse fim, Harrington recorre a uma improvável empresa chamada “Viagens Temporais Murray”. Seu proprietário, Gilliam Murray, realiza expedições turísticas regulares a um dia específico no ano 2000, para que seus clientes testemunhem a derradeira batalha da guerra apocalíptica entre humanos e autômatos, vencida pelo Capitão Derek Shackleton, herói humano que confronta Salomão, líder dos robôs assassinos, num duelo de espadas. Paralelamente, entra discretamente em cena ninguém menos que o escritor H.G.Wells, que acabara de lançar seu romance “A Máquina do Tempo”, e que, de maneira insidiosa, acaba tornando-se o personagem central em torno de quem se desenrola toda a narrativa do livro em suas três partes.

     Na segunda etapa do livro mergulharemos nos bastidores da “Viagens Temporais Murray”, e acompanharemos a terna história de amor entre Claire Haggerty, uma jovem decididamente muito avançada para seu tempo, e ninguém menos que o Capitão Derek Shackleton, sim!, o herói da humanidade do ano 2000! A sequência onde o rapaz se esforça para seduzir a mocinha usando uma salada de paradoxos temporais, e a insana troca de cartas “retrofuturistas” que se segue são, para mim, o ponto máximo do livro.

     Na terceira parte de “O Mapa do Tempo”, quando o título da obra finalmente se explica, uma série de assassinatos misteriosos coloca o inspetor Colin Garrett, da Scotland Yard, na pista de um suposto assassino viajante do tempo, que aparentemente tem a intenção de eliminar três célebres escritores vitorianos e apoderar-se de suas obras mestras antes de sua publicação. São eles ninguém menos que o próprio H.G.Wells (“O Homem Invisível”), Bram Stoker (“Drácula”) e Henry James(“A Volta do Parafuso”), todos personagens retratados com uma humanidade ao mesmo tempo divertida e comovente. Outro personagem real desse período histórico tão suculento para os escritores de literatura especulativa, a Era Vitoriana, que é apresentado no livro de forma marcante, é Joseph Merrick, o Homem Elefante, que será uma influência fundamental para os rumos tomados pela carreira de Wells.

     Em dado momento, sobre a obra mestra de Henry James, o autor escreve: “Ao ver James sorrindo de modo dissimulado, Wells se perguntou como seria aquela história de fantasmas que no fundo não devia ser de fantasmas, ou talvez fosse, mas provavelmente não, já que levava a pensar que era.”

     Acontece que “O Mapa do Tempo” é exatamente isso: uma história de viagem no tempo que no fundo não deve ser de viagem no tempo, ou talvez seja, mas provavelmente não, já que leva a pensar que é. Ao longo de suas 470 páginas o leitor passará por etapas sucessivas e contraditórias: isso é ficção científica; não, não é ficção científica; mas será?... Em linguagem leve e folhetinesca, como se fosse uma obra escrita no período que retrata, o autor nos apresenta um retrato ao mesmo tempo encantador e fascinante da Londres vitoriana e seus personagens. Mais ainda, ele nos faz um relato esclarecedor do que se esconde no fundo da alma de um escritor; de ficção científica, no caso. Por tais motivos esse é um livro que certamente agradará a todos: fãs de FC e leitores do mainstream. Talvez ele lhes mostre que não são, afinal, dois grupos tão conflitantes como às vezes pretendem parecer.

     Se é uma história de FC, eu obviamente não vou revelar. Deixo essa surpresa para o leitor, que há de se encantar, como eu me encantei, com a forma como Palma, ao final da trama, une todas as pontas soltas de maneira perfeita. Mas uma coisa é mais que eloquente: “O Mapa do Tempo” é uma linda homenagem a nós, escritores, a nossos anseios e medos, a nossa solidão e ao nosso júbilo, e é um tributo da melhor qualidade ao nosso “subgênero” preferido, a ficção científica.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Os Pobres & Os Pobres



Essa odisseia filosófica começou assim: minha esposa engravidou e, prevendo as óbvias complicações na dinâmica doméstica que isso traria futuramente, decidimos trocar nossa diarista, que nos atendia duas vezes por semana, por uma empregada que dormisse no serviço. A primeira, a diarista, era uma pessoa de origem humilde, porém habituada a ler, gostava de filmes, e sua filha, até onde eu sei, aprendia inglês e estudava informática. Não se preocupe com isso agora, a relevância de tudo isso virá adiante.
Por sugestão da empregada de minha irmã, excelente funcionária que cuida bem da casa e de
minhas duas sobrinhas, admitimos em janeiro uma conterrânea sua, uma senhora de cinquenta e poucos anos, analfabeta de pai e mãe, mas que se mostrou muito feliz e grata com a oportunidade, e disposta a se adaptar e a aprender o que não dominava no que se refere a serviços domésticos.
O nascimento de nossa filha seria no final de março. Por dois meses, minha esposa se empenhou em deixar a empregada “afiada” para nossas necessidades; eu, por minha parte, limpei o antigo quarto de despejo para que pudesse acomodá-la, e compramos colchão novo, TV de tela plana, e até, por sugestão de minha mãe, um rádio a pilha, do qual que ela gostou mil vezes mais do que da TV (damn!).
Duas semanas antes da data do parto, fomos surpreendidos com a notícia de que ela “não pretendia ficar”. Mas por quê, indagou desesperada minha esposa quase a termo, foi algo que fizemos? “Não, não me acostumo com Belo Horizonte”, foi a resposta dela. Ressaltou que minha esposa foi a melhor patroa que ela teve, e o quartinho que arrumamos para ela era perfeito. O problema era que queria voltar para a roça.
Ficamos atônitos. O salário oferecido a ela, diante do que ela ganhava no interior, resolveria
todos os seus problemas, inclusive uma alegada reforma de que sua casinha necessitava. Ela já havia trabalhado em Belo Horizonte antes, ou seja, a desculpa de que “não se adaptava” parecia meio fajuta. De fato, conversando com sua amiga, funcionária de minha irmã, soubemos que nossa senhora de cinquenta e poucos anos arranjara um namorado em sua cidade, durante o carnaval, e por isso se mostrava dominada por uma ansiedade adolescente no sentido de retornar para o interior.
Minha esposa pediu, quase implorou, para que ela pelo menos nos esperasse conseguir uma
substituta. Ela, meio a contragosto, concordou. Entrevistamos algumas, e um número alarmantemente significativo chegou a “fechar negócio” conosco, apenas para dois ou três dias depois voltarem atrás, pelas razões que nos pareciam mais descabidas: a discordância de uma filha, já que ela trabalhava de babá para a neta; a ex-patroa, que chorou e entrou em crise depressiva quando ela falou em sair do emprego, e por aí vai. Estava difícil. Nossa “prestativa” auxiliar dava palpites, ansiosa pela notícia de que tinha uma substituta, para poder nos olhar pelas costas.
Chegou o dia do nascimento de nossa filhinha. Nossa empregada apaixonada recebeu seu derradeiro salário na manhã de sexta-feira, antes de sairmos para a maternidade. Minha esposa pediu que ela retornasse no domingo para nos ajudar, com o que ela concordou, mas levou todas as suas coisas, e não quis levar nossa chave de casa. “Por quê? Você vai voltar mesmo?” Ela respondeu: “Claro, não sou uma pessoa irresponsável, pode ficar tranquila.” Não voltou. Nem atendeu aos telefonemas. Nunca mais a vimos, o que, admito, não foi desagradável.
Talvez o pior da sensação ruim se deva ao fato de você atuar com toda ética, boa vontade e lealdade com uma pessoa assim, crendo que está fazendo um grande bem a ela, e a resposta sugerir que você é uma grande e ingênua besta. Por outro lado, se algo de bom se retira da experiência, foi minha reflexão a respeito dos tipos de pobre.
Existem pelo menos dois grandes grupos de pobres: chamei-os de “pobres de dinheiro” e “pobres de espírito”.
Anos atrás conheci uma moça muito bonita, uma mulata alta, de olhos verdes, sempre bem vestida, uma simpatia só. Convivíamos dentro de um grupo, e tempos depois fiquei sabendo, por uma amiga mais antiga, que ela havia nascido na favela, em uma família muito, mas muito pobre. Lutou muito com seus próprios meios, e agora tinha um cargo de responsabilidade e destaque em um grande banco. Fiquei admirado, e sempre me lembrava dela quando eventualmente conhecia pessoas assim: desprovidas de recursos materiais, jamais usavam isso como desculpa para autocomiseração, ressentimento social ou justificativa para atos condenáveis. Esses “pobres de dinheiro”, uma vez que era apenas o material que lhes faltava, conservavam sua moral e sua dignidade, lutando contra adversidades às vezes enormes até seu merecido reconhecimento e melhora de vida. O “pobre de dinheiro”, concluí, tem esperança. O problema mesmo é o “pobre de espírito”. Este tem uma visão estreita e mesquinha da vida, egoísta e imediatista. Seu limitado círculo de conforto é sua maior preocupação, e apenas se move para conservá-lo com um mínimo grau de esforço. O “pobre de espírito” não respeita as necessidades ou a vontade de ninguém que orbite mais longe que seu umbigo sujo. Já conheci inúmeros. Não apenas minha ex-auxiliar, em quem penso com um prazer malévolo esperando o dia em que o namorado do carnaval dê-lhe um pé nos fundilhos; quem sabe um dia alguém me ligue, pedindo referências dela para um emprego? Não, não desejo mal a ninguém, mas também não vejo por que prejudicar outro pobre patrão ocultando a verdade. Conheço outro caso, de uma senhora que fazia serviços gerais em uma escola, e um dia pediu as contas. “Mas por quê, fulana?” – esses pobres sempre surpreendem seus empregadores da mesma forma – “Logo agora que seu marido faleceu?” Ela responde alegremente: “É por isso mesmo, vou receber a pensão dele, não preciso mais trabalhar.” O “pobre de espírito” quer se dar bem, mas não se preocupa em melhorar, o que é muito diferente, mas o mais curioso é que “pobre de espírito” e “pobre de dinheiro” são duas coisas sem o menor ponto em comum. O primeiro não é necessariamente um “duro”. Tem “pobre de espírito” profissional liberal, explorando e pisando em colegas menos experientes ou mais ingênuos, faltando com a ética profissional das formas mais desavergonhadas. Tem aquele que é empresário, e se mete em todo tipo de falcatruas falsificando remédio ou material de construção, superfaturando negociatas, entrando em maracutaias, doa a quem doer, desde que a ele mesmo não doa. O que mais tem é “pobre de espírito” político, como você pode ver diariamente nos jornais, e suas atitudes e palavras chegam a ser verdadeiras afrontas ao senso comum, ainda que
eles profiram suas enormidades com um sorriso cínico no rosto. Em termos de quantidade, não sei qual grupo tem mais gente, mas já disse uma vez o pensador argentino González Pecotche: “A miséria moral é mil vezes mais espantosa que a material.”
Uma coisa é certa: o “pobre de espírito”, tenha dinheiro ou não, é um câncer dentro da estrutura social, seja em que âmbito atue.
Para sua tranquilidade, leitor: nossa filhinha nasceu e está muito bem e muito linda. E já arranjamos outra auxiliar, uma daquelas que deram para trás, mas em um lampejo de bom senso (que esperamos que dure) voltou atrás. E assim vamos vivendo, até a próxima surpresa.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Os Ratos Roeram a Roupa da Rainha do Rock


Esta semana me encontrei casualmente com a Ana Bhering, amiga médica já de outros carnavais, e ela me pareceu particularmente chocada. Explicou-me a razão: acabava de retornar do show da Rita Lee em Aracaju, sua despedida dos palcos, e ainda não havia se recuperado do susto e da indignação diante do que viu naquela noite. Pior, havia visto imagens brutais que lhe pareciam estar sendo mantidas deliberadamente ausentes dos principais veículos de comunicação. Imagens de fatos que dariam uma outra visão, pelo menos mais aprofundada, da "versão oficial" mantida pelos principais veículos de imprensa. Saí pensando em como continuamos formando nossos julgamentos com base no que a imprensa se digna a nos mostrar, como fazem os mágicos que atraem nossa atenção para a mão esquerda, enquanto executam o truque com a direita. Mas pensei também que para isso "Deus criou a internet, viu que era boa, e então fez as redes sociais e os blogs". Foi para permitir que as testemunhas oculares divulgassem o outro lado da moeda, dando assim os elementos para que o leitor, de posse de mais informações, julgue por si mesmo.
Como o objetivo deste blog é, em última instância, chegar à essência das coisas, cedo este espaço à amiga Aninha, a destemida Raposa do Orkut, para que relate o que viu com suas palavras. E cada um que julgue por si mesmo. Alea jacta est.
No dia 28/1/2012 fui a Aracaju/SE para assistir ao show de Rita Lee, que havia sido anunciado como o último de sua carreira. O evento fazia parte da programação do “Verão Sergipe”, com entrada franca, e o show foi apresentado na praia de Atalaia Nova.
Perdi o vôo de ida e, por este motivo, quando cheguei ao local o show já tinha começado. Na plateia estavam cerca de 20.000 pessoas. Apesar disso consegui passar aos poucos pela multidão até me posicionar em frente ao palco, prova de que o público estava aproveitando pacificamente o espetáculo. Por onde passei só vi gente alegre, e todos foram tão cooperativos com a minha tentativa de passar na frente que me lembro ter pensado em como o povo nordestino sabe aproveitar festas de rua – neste caso, na praia.
Contudo, durante o espetáculo, policiais armados com cassetetes entraram no meio da multidão, possivelmente em busca de drogas, empurrando e intimidando as pessoas com tamanha truculência que Rita Lee, por duas vezes, interrompeu o show pedindo para que eles não estragassem o evento, uma vez que o público queria apenas se divertir e ninguém estava provocando qualquer tumulto. Embora Rita tivesse feito estes primeiros apelos com bom humor, sendo intensamente aplaudida, pouco depois surgiram dezenas de policiais abrindo caminho na multidão, inexplicavelmente EMPURRANDO E AGREDINDO a platéia.
Algumas cenas de agressão foram gravadas e estão circulando na internet. Não muitas, pois obviamente quem estava perto não se atreveu a registrar (na mira de cassetetes você tentaria filmar?) Eis uma delas:
https://www.youtube.com/watch?v=LnknEZSW5rs&feature=youtube_gdata_player

Visivelmente emocionada, Rita saiu em defesa dos fãs enfrentando a polícia e exigindo retratação pelo uso da violência. Nunca vi tamanha coragem.
“Isso é força bruta! Vocês não têm o direito de usar a força na meninada que não tá fazendo nada! Cadê o responsável? Eu quero falar! Esse show é meu, não é de vocês! Esse show é minha despedida do palco, e vocês continuam tendo que guardar as pessoas – não agredir, seus cachorros! Eu sou do tempo da ditadura, vocês pensam que eu tenho medo? Eu sou mulher! MULHER! Eu tive três filhos, tenho uma neta, 67 anos, o que vocês vão fazer? É isso que vocês querem? Chamar atenção? Eles querem chamar a atenção! Querem cantar? Querem o que? É horrível! Por que isso? Por que?”
“Não, eu não vou esperar! Esse show é meu, as pessoas estão esperando eu cantar, não a gracinha de vocês, seus filhos da puta! Agora venham me prender!”

Eu nunca havia presenciado cenas de violência gratuita como as ocorridas naquela noite, muito menos um artista se expondo dessa maneira para defender sua platéia. A imprensa, contudo, divulgou amplamente a reação de Rita SEM MENCIONAR A VIOLÊNCIA, com a clara intenção de justificar sua detenção ao término do espetáculo por desacato à autoridade.

A vereadora Heloísa Helena, que estava na platéia e presenciou tudo, foi até a delegacia prestar depoimento em favor de Rita Lee. Depois declarou pelo twitter:

“Chegando de Aracaju após Lamentável e Triste acontecimento na tentativa de Rita Lee em promover uma Linda Despedida de Palco. Aceito democraticamente ferozes críticas recebidas MAS entre a "contabilidade de seguidores" e minha Consciência em Relatar o que Vi ficarei sempre com minha Consciência e nunca na Comodidade do Silêncio! O Assunto está na Justiça e por Obrigação Moral vou Testemunhar! Deixando de lado as explicações a quem eu Respeito! O que aconteceu? Eu estava bem pertinho e Vivenciei...Vi e ponto!!! Após "ação policial" de empurrões contra Meninada (que não estava fumando maconha nem badernando!) Rita Lee verbalizou: Vão procurar os políticos ladrões...tem tanto político fdp pra vocês acharem"...mais ou menos isso! Daí começou o Conflito/Tumulto... Ela ficou todo o Tempo explicando que era uma Mãe, Avó, 67 Anos, queria fazer uma Festa Linda Despedida e pediu que os Policiais não ficassem todo o tempo circulando na frente do Palco (eu estava e não tinha confusão!) Depois, claro...Provocação gera Provocação! Vou testemunhar em Defesa da Rita Lee como faria diante de Qualquer Injustiça a Policial, Catador de Lixo, Morador de Rua”.

O governador Marcelo Deda afirma que estava no camarote e “não viu nenhuma ação policial que justificasse a reação da cantora”.

AMIGOS, EU AFIRMO QUE HOUVE SIM, AÇÃO ABUSIVA E INEXPLICÁVEL POR PARTE DA POLÍCIA. EU ESTAVA NA PLATÉIA E PRESENCIEI TUDO DE PERTO. OS POLICIAIS USARAM CASSETETES, INTIMIDARAM E BATERAM. ASSIM COMO A VEREADORA HELOISA HELENA, ESTOU DECLARANDO O QUE VI.

Um rapaz membro do fã clube da cantora, que a acompanha há anos em seus shows pelo Brasil, foi empurrado e agredido sem nenhum motivo aparente. Não estava usando ou portando drogas e não havia oferecido qualquer resistência à passagem dos policiais, mas obviamente se recusou a ser levado por eles para fora do local, sabe Deus para onde e com qual objetivo. Esta cena também foi filmada (vejam link abaixo)
http://www.youtube.com/watch?v=j3DF75MwM5c&feature=related

O que mais me espantou foi constatar que situações como esta são encobertas de tal forma pela imprensa que devem ocorrer muito mais frequentemente do que imaginamos, sem que a verdade
jamais chegue ao conhecimento da população. Inúmeros pseudo jornalistas apareceram como ratos para defender as autoridades em blogs medíocres, divulgando criticamente a reação de Rita Lee como se nada tivesse acontecido para provocá-la. Nem preciso dizer que não o fazem a troco de nada, me causa nojo pensar. Vários ainda elogiaram a polícia “pelo bom senso de aguardar o fim da apresentação para aplicar a lei prende-la sem causar maiores tumultos”.

O promotor Antonio Rolemberg afirmou no twitter:
1- Rita Lee se excedeu nas declarações”
(Pergunto: E A POLÍCIA? NÃO SE EXCEDEU EM NADA NÃO?)
2- “O Poder público deve ser respeitado”
(Pergunto: SÓ O PODER PÚBLICO? MEU CARO, TODO CIDADÃO MERECE RESPEITO!)

Diante da repercussão do caso, e da impossibilidade de freiar a divulgação da verdade nas redes sociais, o governador Marcelo Deda declarou via twitter:
“Ainda sobre o show da Rita Lee: o cachê foi pago e o show, mesmo com problemas, foi feito até o fim. Contrato executado, pagamento feito, caso encerrado”.
Convenhamos, é muito conveniente “encerrar o caso” quando a verdade vem à tona.
Sabem vocês que sou fã de Rita Lee e acompanho sua carreira desde a infância, contudo o que estou relatando aqui nada tem de parcial. A violência gratuita da polícia não foi testemunhada apenas por mim. Eu nunca tinha vivido situação semelhante, foi assustador. Abram seus olhos, a ditadura não acabou.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Por Linhas Nada Tortas




Se você leu meu post anterior a este, no blog, há de se lembrar de minha exortação dirigida ao novo escritor brasileiro, no sentido de, a fim de se tornar um bom escritor, investir na criação de personagens reais e humanos.
Não poderia haver prêmio melhor para este autor que lhes escreve, amargurado pelas superficialidades destes tempos de escrita digital, do que ler logo em seguida o excelente romance "Por Linhas Tortas" (Novo Século -2011), livro de estreia da jovem escritora Cynthia França.
O romance conta a história de Ester, advogada carioca que teve uma juventude daquelas “certinhas”, onde tudo correu às mil maravilhas, de acordo com o script elaborado para a vida de qualquer pessoa feliz e normal. É feliz na amorosa família de origem, e gosta de seu trabalho, ainda que não haja sido a primeira opção de seu coração. Tem alguma tendência ao isolamento, mais isso não impede que conheça, ainda nos tempos de faculdade, o homem de sua vida, com quem sonha constituir família e viver o resto de seus dias. Mesmo nesse caminho o futuro promete seguir a mesma sina da perfeição, até que uma conversa por telefone vira seu mundo pessoal de pernas para o ar. Pela primeira vez na vida, Ester olha para o futuro e vê nuvens escuras e insondáveis. Pela primeira vez experimenta a raiva e o desamparo trazidos pela adversidade, o “por que eu?”, e é obrigada a amadurecer à força e sem anestesia. Ao longo de 321 páginas o leitor acompanha passo a passo uma emocionante história de lutas, dúvidas, alegrias, decepções e superação.
A estrutura do romance me agradou logo de cara. Sendo narrado em primeira pessoa, Cynthia
abdicou da tradicional divisão em capítulos. Os parágrafos são divididos em grupos, separados por pequenos espaços vazios. Utilizei exatamente a mesma estrutura em meu romance de estreia, "Quintessência". Na época, já que a história era narrada pelo meu protagonista Tom Rizzatti, quis passar ao leitor a impressão de que alguém estava lhe contando um caso, como numa conversa informal. E convenhamos, conversas informais não são separadas em capítulos com títulos e números. A prosa de Cynthia França provoca o mesmíssimo efeito. O leitor rapidamente acolhe Ester como uma amiga próxima, e acompanha seu relato com a fluidez e a leveza que a autora foi capaz de lhe infundir com brilhantismo. O livro se converte, sem que o leitor sinta, em um "page turner".
Mas o mais impressionante de tudo é exatamente a credibilidade dos personagens. Sua humanidade absurda, tanto da protagonista como de todos os secundários, com camadas de psicologia superpostas, nos causa uma sincera dúvida sobre o quanto daquelas pessoas de fato caminha pelas ruas à nossa volta. É exatamente por isso que acompanhar a trajetória de Ester é alecionador. Através de suas experiências absolutamente verossímeis, qualquer leitor haverá de encontrar um paralelo com suas próprias lutas e dúvidas, com suas próprias vivências ou as de pessoas próximas. E é, acima de tudo, uma aula de como a sensibilidade humana é capaz de funcionar como um farol que guia o barco do indivíduo com segurança através de um mar tempestuoso e coberto de neblina. Das últimas páginas ao final de "Por Linhas Tortas", senti uma emoção e uma felicidade notáveis. Minha vontade era deixar o livro, com meus sinceros agradecimentos à amiga Ester, e ir tratar de cuidar bem e ser feliz com as pessoas que amo.
Numa época de literatura superficial e árida, "Por Linhas Tortas" se destaca por conferir um sopro de doce esperança quanto ao futuro da literatura brasileira. Dizem à boca pequena que a estreante Cynthia França já segue escrevendo seu segundo livro. Penso que nós, amantes da boa prosa, merecemos isso. Quanto a mim, mal posso esperar.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Tamanho de Um Personagem

Recentemente, passando olhos sobre um dos inúmeros e-mails de propaganda que recebo diariamente, deparei-me com o anúncio do lançamento em DVD do filme O Incrível Homem Que Encolheu (1957). Bateu um saudosismo. Esse fazia parte de uma penca de filmes em preto-e-branco, produzidos pelos EUA entre os anos 50s e 60s, e que passavam nas Sessões da Tarde da TV na minha infância. Digamos que esses filmes foram uns tijolinhos que acabaram construindo os alicerces de meu gosto atual pela ficção científica. Enquanto comprava o DVD pela internet, lembrei-me de que o filme era baseado em um romance de Richard Matheson, e que eu tinha, por acaso, o livro ali na estante. Decidi lê-lo, para comparar com o filme que chegaria em breve.
Naquele momento me dei conta de algo perturbador: na verdade, eu nunca havia efetivamente lido nada do Matheson, apesar de meus quilômetros de leitura de FC clássica! E, ainda assim, conhecia muito de sua obra. Eu explico: ainda que não com a frequência nem a badalação de um Stephen King, Richard Matheson é um dos autores de FC com mais textos adaptados para o cinema e a TV. No livro O Incrível Homem Que Encolheu (Editora Novo Século), por exemplo, além do próprio romance que originou o filme que eu adquiri, temos contos como "Pesadelo a 20.000 Pés", transformado duas vezes em episódio da série Twilight Zone, a primeira para a TV (com William Shatner) e a segunda para o cinema (com John Lithgow); "A Caixa", que também virou episódio de Twilight Zone (um dos melhores, na minha opinião) e depois filme de cinema com Cameron Diaz; "Encurralado", transformado em filme homônimo dirigido por Steven Spielberg (Duel – 1971). Todos também conhecem, com certeza, o romance "I Am Legend", ainda que seja em sua primeira adaptação para o cinema em 1971 (The Omega Man, com Charlton Heston), ou na mais recente, com Will Smith (Eu Sou a Lenda).
Fico curioso sobre por que a obra de Matheson é considerada tão compatível com as artes visuais (cinema e TV). Também fico surpreso ao retirar o livro da estante e descobrir, na orelha, que Matheson é reverenciado por autores veteranos de peso, a saber: Stephen King, Ray Bradbury e Dean Koontz. Lendo o livro, descobri a explicação para as duas coisas.
Faz pouco tempo que andei debatendo, aqui pela internet, a respeito da nova geração de autores da ficção científica brasileira (FCB): quem são, quanto valem e o que se pode esperar deles, e também sobre o futuro de nosso subgênero favorito. A meu ver, discutir sobre o quanto a literatura brasileira de FC precisa conter elementos caracteristicamente tupiniquins tem lá sua importância, mas é um fator secundário ou até terciário no momento, tal é a falta de cuidado de nossos jovens escritores, excitados com as facilidades para publicação trazidas pelas vias virtual e
digital a ponto de “publicar” (ou “tornar público”) seus textos prematuramente, sem maiores cuidados de amadurecimento e aperfeiçoamento. Seria como se um grupo de jovens confeiteiros ficasse discutindo a cor do glacê da cobertura, enquanto não são capazes de fazer um bolo cuja massa tenha consistência e sabor decentes.
Nesse aspecto, Richard Matheson deveria ser leitura obrigatória para quem que ser primeiro um “bom escritor – period”, e depois um “bom escritor de FC”.
O Incrível Homem Que Encolheu narra a história de Scott Carey, que durante um passeio de barco é envolvido, em alto mar, por uma misteriosa nuvem de gotículas esverdeadas que lhe provoca um estranho “formigamento” no corpo. Tempos depois, descobre que começou a encolher. Cerca de 3,5 milímetros por dia. Contínua e inexoravelmente. O texto começa quando o personagem conta com aproximados 21 milímetros, ou seja, cerca de uma semana antes de seu suposto total “desaparecimento”. Do porão de casa, onde se encontra confinado, Carey rememora todos os eventos que o levaram até ali, quando sua vida se resume a tentar sobreviver, buscando comida e tentando escapar de uma voraz aranha viúva-negra, que se transforma em sua nêmese e que a cada dia lhe parece maior. Guardadas as quilométricas distâncias, o início do
texto me fez lembrar A Metamorfose, de Kafka, pela situação claustrofóbica e insólita do protagonista.
Quando se assiste o filme O Incrível Homem Que Encolheu, cujo roteiro é assinado pelo próprio Matheson, compreende-se por que esse autor tem sido tão requisitado pelas telas grande e pequena. O que se assiste é uma reprodução fiel do que se vê na tela mental quando se lê o livro. A capacidade descritiva de Matheson, em seu detalhamento e sua fluidez, inclusive nas cenas de ação, são um paraíso para qualquer roteirista. Uma das principais (e inevitáveis) perdas do filme em relação ao livro é a mudança da estrutura literária, de cenas de dura luta pela sobrevivência entremeadas por flashbacks habilmente enxertados, para uma estrutura absolutamente linear em termos de passagem do tempo. Entretanto, mesmo que o filme seja
inferior ao livro, como acontece de hábito nessas adaptações, Matheson conseguiu preservar, mesmo na tela grande, o que faz desse texto uma obra-prima. Sem esse “algo”, O Incrível Homem Que Encolheu não seria muito diferente de dezenas de textos medianos de FCB que abundam em miríades de novas coletâneas organizadas e publicadas ao longo do ano por nossas valentes editoras. Esse “algo” é o que descrevo a seguir, e é um ponto básico a que todo aspirante a escritor deveria prestar especial atenção, seja qualquer um o gênero de literatura em que se aventure.
Richard Matheson é um genial criador de personagens. Por mais absurda e inverossímil que seja a premissa (um homem que encolhe???), cuja explicação “científica” remete às mais simplórias origens dos poderes de super-heróis da Marvel, Scott Carey é tão humano que é capaz de fazer o leitor aceitar sua situação, consentindo com suas dificuldades colossais, compadecendo-se de sua estupefação e desespero crescentes. Carey transita da incredulidade para a revolta, da revolta para a barganha, da barganha para a depressão, como qualquer vítima de uma fatalidade. Só no final, a compreensão e a aceitação são capazes de redimi-lo.
As surpreendentes dificuldades para se escalar uma geladeira como se fosse o Monte Everest em busca de uma caixa de bolachas mofadas, quando habilmente descritas, ainda assim só seguram um texto por um tempo limitado. Em pouco tempo, mesmo o mais estupefato leitor se acostuma com a diferença das escalas. Isso apenas se mantém até o fim, ao longo de cerca de duzentas páginas, porque o leitor é levado a compartilhar com Carey as progressivas e lentas mudanças de sua perspectiva pessoal, não apenas em relação ao mundo circundante, mas em relação a si mesmo.
A princípio, vê com desesperada impotência a perda de sua identidade como “macho alfa”, provedor e pai de família. Enquanto encolhe, sua perda de autoestima cria um abismo cada vez maior entre ele e sua esposa, no que se refere ao sexo. A filha pequena (que não existe no filme), a cada dia se transforma em uma ameaça cada vez maior a sua integridade física. Em sua ingenuidade infantil, vai aos poucos tratando Carey não mais como um pai, mas como um igual, e depois como um brinquedo. Mais tarde, já preso no porão, Carey se vê privado até mesmo de suas ilusões pessoais acerca de sua vida anterior. Por exemplo, quando depois de
muitos dias volta a ver Louise, sua esposa:

“De repente, a enorme figura moveu-se diante da gelatina incolor de suas lágrimas. Aquilo nunca lhe havia ocorrido de forma tão contundente. Por não vê-la, baseando-se apenas em seu próprio físico, pensava nela como alguém em quem podia tocar e abraçar, ainda que soubesse que não era assim. Agora, entendia por completo. E aquele era um cruel peso que esmagava qualquer lembrança.”

A aranha, curiosamente, é usada por Matheson como a síntese de tudo aquilo que o prende, limita e impede de triunfar. Em dado momento, quando a depressão o leva a decidir-se a colocar um fim precoce à própria vida, um sono reparador, provavelmente adoçado por um sonho esquecido (quem de nós nunca viveu algo assim em um momento de grande crise?), faz com que Carey desperte tomado por uma surpreendente vitalidade e disposição para lutar. Ele tem que matar a aranha! Afinal...

“Aquela aranha era imortal. Era algo mais que uma aranha. Era o conjunto de todos os horrores desconhecidos do mundo, fundidos num terror indescritível. Era o conjunto de todas as ansiedades, inseguranças e temores de sua vida na forma de um corpo repugnante e negro como a noite.”

Superados seus obstáculos cada vez maiores, passo a passo, chega o momento final em que Carey sofre a derradeira e definitiva mudança de perspectiva em sua vida, a redentora, a que faz com que o leitor se coloque a seu lado como um igual e vivencie a doce esperança frente ao futuro. Tal conclusão é igualmente destacada no livro e no filme, demonstrando que é exatamente a essência de tudo que Matheson pretendia dizer com a história. Um pequeno trecho, apenas para reflexão:

“Porque o milímetro era um conceito humano, não um conceito da natureza. Para o homem, zero milímetro significa ‘nada’. O zero significava o nada. Mas para a natureza não existia o zero. A existência sucedia-se em intermináveis círculos. Naquele momento, pareceu-lhe muito simples. Nunca desapareceria, porque no universo a não existência carecia de sentido.”

O Incrível Home Que Encolheu funciona porque Scott Carey é um grande personagem. Quanto mais encolhe, maior fica. E se autores como Stephen King, outro grande criador de personagens, declara abertamente sua admiração por Matheson, o círculo fecha e tudo se explica.
Literatura é sobre humanidades. É sobre temores, dúvidas, emoções, alegrias, júbilo, tristezas, esperanças, tudo humano.
Pouco importa se esse humano tem escamas ou tentáculos, se é um gigante ou tem milímetros de estatura. Em cada um desses casos, o escritor tem que dar ao leitor algo a que se agarrar, algo com que se identificar. Esse algo é o elemento humano, é a quantidade de realidade e semelhança com a própria essência que é capaz de encontrar num personagem. Quando encontra isso, o leitor alegremente se rende ao escritor e abraça sua história, pegando carona nas humanidades de personagens que o levam a pensar, sentir e vivenciar coisas que muitas vezes têm, outras vezes nada têm a ver com seu cotidiano e sua vida. E não é justamente isso o que nós, leitores, buscamos em um bom livro?

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Razão e Sensibilidade no Planeta dos Macacos

Eu no Planeta dos Macacos

ATENÇÃO: SPOILERS!!!!!

Foi o Chacrinha quem entrou para a História com a frase: "Na televisão nada se cria, tudo se copia". A frase (genial) traduz uma realidade que persiste nos dias de hoje, sem esperança de cura. Basta observar como o enredo das novelas brasileiras "chupa" os plots de filmes e seriados estadunidenses. "A Viagem" e "O Ilusionista", "Kubanakan" e "John Doe", são exemplos clássicos. Mais recentemente, a cena da morte de Salomão Hayalla na atual novela "O Astro" e seu paralelo com a cena da morte do Comediante no filme "Watchmen" causou comoção na internet, e creio que ainda pode ser vista nos youtubes da vida.

Mas essa "cultura da imitação" acabou transcendendo a telinha e invadindo a tela grande. No cinema, como se não bastasse a aberração de Bollywood, o cinema tipo Z indiano que copia discaradamente os blockbusters dos EUA, Hollywood começou a copiar a si mesma. Uma onda de remakes, muitos deles demonstrando uma flagrante intenção de faturar ($$$) apostando num cavalo já conhecido como campeão ( o famoso "aposta na barbada"), outros absolutamente desnecessários, dado o pouco tempo passado desde o filme original ou o enredo que nada de novo traz, nem sequer em termos de homenagem à obra-mãe.

Mas existem, felizmente, nesse inferno do apagão criativo que se tornaram o cinema e a TV, as famosas exceções que confirmam a regra. Uma delas, na minha opinião, está sendo a ressurreição da franquia "O Planeta dos Macacos".

O francês Pierre Boulle, autor do livro Le Pont de la Rivière Kwaï(1952), que em 1957 foi transformado por David Lean num filme superpremiado, escreveu em 1963 sua obra La Planète des Singes, que em 1968, a exemplo do irmão mais velho, também se transformaria em filme de sucesso pelas mãos de Franklin J. Schaffner. "O Planeta dos Macacos", estrelado por Charlton Heston e por Roddy McDowall, que sempre me impressionou pela transparência com que conseguia transmitir suas típicas expressões faciais acima da pesada maquiagem de Cornelius (no cinema) e Galen (na TV), transformou-se rapidamente em cult. A alegoria da sociedade símia estratificada em classes de orangotangos (administradores), chimpanzés (cientistas) e gorilas (militares), mostrando os esforços extremados de uma cultura que tenta, desesperadamente e por todos os meios, ocultar uma verdade que pode fazer ruir toda a sua estrutura de poder e domínio, aliás bem familiar ao nosso mundinho humano, acabou gerando quatro outros longas para o cinema e uma série de TV.

A "cultura da imitação" trouxe "O Planeta dos Macacos" de volta em 2001, numa releitura de Tim Burton que certamente não causou o mesmo impacto da primeira obra, mas em alguns aspectos é mais fiel ao livro de Boulle do que o filme de 1968. E agora, em 2011, somos brindados com "O Planeta dos Macacos - A Origem", dirigido por Rupert Wyatt. E a despeito de minha condição de fã incondicional da série (tenho todos os DVDs), dois comentários fizeram crescer exponencialmente minha vontade de ver esse filme. Primeiro: "Não é uma boa ficção científica; é cinema de alta qualidade!" Segundo (este vindo de várias pessoas diferentes): "Amanhã vou ver de novo!"

A releitura do Planeta dos Macacos me parece, em vários sentidos, bem mais racional e comedida do que a delirante versão dos anos 60/70s. Na primeira versão, a explicação para a ascenção da cultura símia é a volta no tempo do casal de macacos inteligentes do futuro, Zira e Cornelius, que em nosso mundo acabam tendo um filho, César, que quando adulto irá liderar a revolução dos macacos. Estes, após uma misteriosa praga que extingue todos os cães e gatos do mundo (!), se transformam em uma combinação de animais de estimação/empregados domésticos (!!). O ponto mais constrangedor que nós, fãs, costumamos ignorar em nome do amor à obra, é que não se explica como a inteligência de César, o macaco-herdeiro de um outro mundo, acaba "contaminando" os macacos do nosso tempo, dando origem a toda uma civilização. Nesse ponto o novo filme dá um show. Nada de viagens no tempo. Indústria farmacêutica!!!! Uma nova droga pesquisada por um grande laboratório, em busca da cura do Mal de Alzheimer, acaba trazendo como efeito colateral um extraordinário upgrade na inteligência de uma das macacas-cobaia, e essas habilidades inadvertidamente acabam se transmitindo ao seu filhote, que se chamará... César!

No filme, James Franco cumpre bem o serviço, como de hábito. Freida Pinto encanta por sua beleza. Tom "Draco Malfoy" Felton, após o longo estágio na saga de Harry Potter, atinge o grau de Doutorado em Personagens Antipáticos. E John Lithgow me deprime. O sujeito é tão espetacular que sinto raiva, ao pensar que já caminhei ao lado dele numa rua de Nova Iorque e nem tive a coragem de pará-lo e dizer: "Amigo, você É O CARA!" Os efeitos especiais são tão perfeitos que você até esquece que, em muitos momentos, os atores reais estão na verdade contracenando com alguma tela azul. A batalha na ponte Golden Gate, coberta por um daqueles "fogs" que caem como uma enxurrada branca para matar de raiva os fotógrafos-turistas, está destinada a assumir o status de clássica. O virus que se dissemina, prometendo causar uma epidemia que acabará dizimando a maior parte dos seres humanos, serve como pano de fundo ideal apara a promessa da "virada" (Nota: fique no cinema uns cinco minutos após terminado o filme, para ver essa cena extra!).

Mas o mais espetacular para mim, falando em termos de cinema, é a densidade psicológica de César, o macaco. Para sua desgraça, nascido inteligente como humano numa carcaça símia. A alegria e a curiosidade incontrolável típicas da infãncia humana se reproduzem nele, conquistando no ato sua família humana adotiva e toda a audiência na plateia do cinema. A cena onde César é levado para um passeio na floresta de sequóias, seu encantamento e veneração ao ter seu primeiro contato com a Natureza, é absolutamente comovente. Algo superior, transcendente, toca o pequeno César naquele momento, e ele nos carrega consigo em sua euforia incontida, quando salta de galho em galho pela floresta, em júbilo absoluto.

A perda da pureza infantil do protagonista, sua "expulsão do paraíso", ocorre no momento em que, num arroubo de emoção, foge da casa para defender seu "avô humano", John Lithgow dando mais um show numa assombrosa crise de Alzheimer. Como uma criança que não conhece a força contida em seu corpo selvagem, César acaba gerando terror na comunidade humana que o cerca, e é levado para uma espécie de depósito público para grandes primatas, algo talvez só concebível num país como os EUA. Ali, da forma mais dolorosa, ficam claras duas coisas para o pequeno: primeiro, ele não é humano. Segundo, humanos são cruéis com os animais. O espectador assiste e continua consentindo, enquanto o coração de César se parte. A inocência e a pureza se perdem para sempre, substituídas por um compreensível rancor e uma mágoa profunda. Sai a sensibilidade, e por uma questão de sobrevivência assume as rédeas a razão do macaco, que, vamos recordar, é tão inteligente quanto um ser humano. É o começo de uma revolução épica, planejada em cada detalhe, cuja coerência dignifica o filme até seu final.

Na medida em que César cresce e desenvolve seu intelecto, você observa como paulatinamente vai deixando a postura encurvada dos primatas e começa a andar de coluna ereta, sobre os dois pés apenas. Na fase em que se encontra confinado no tal depósito, veem-se algumas das melhores homenagens à série original do cinema. Em dado momento, um dos funcionários assiste pela TV o filme "Agonia e Êxtase", um dos melhores momentos da carreira de Charlton Heston, o Taylor do filme de 1968; pela primeira vez são vistos juntos os gorilas, chimpanzés e orangotangos, e começam a se desenhar os papéis que cada espécie desempenhará na organização social futura; e o mais espetacular, na cena em que César entra em combate físico com Draco Malfoy Felton, este pronuncia a frase: "Tire suas mãos de mim, seu macaco imundo". A resposta é um sonoro "Não!", a primeira palavra pronunciada por um macaco. Se você se lembra, no filme de 1968 a frase dita pelo humano é exatamente a mesma dita pelo astronauta Taylor, revelando sua inteligência aos macacos. E agora, no filme de 2011, a frase leva o macaco a revelar sua inteligência, por primeira vez, à humanidade. Ou seja, a cena é um espelho exato daquela outra, no filme original. Nos filmes dos anos 70s, a palavra "não!" é reconhecida como o símbolo da revolta símia, sendo citada como a primeira palavra dita por um macaco a um humano, e assim a nova saga reverencia uma vez mais a anterior.

Como boa FC, é o caso de perguntarmos agora, num breve exercício de extrapolação especulativa: seria possível que um dia, como no filme, o macaco suplantasse o humano como raça dominante do planeta Terra? Talvez você, num infeliz surto de desconhecimento científico ou apenas querendo polemizar, afirme: "Claro, afinal o homem não descende do macaco?"

E no entanto, passaram-se séculos e séculos, e humanos continuam humanos, e macacos continuam macacos. Não há evidências de que um se converta no outro, permanecendo as duas espécies confinadas em invólucros e realidades distintas. Enquanto evoluimos das florestas e cavernas (vivendo como viviam - e vivem - os macacos) para os edifícios e condomínios contemporâneos, os macacos continuam vivendo como macacos. É como se algo a eles faltasse, a despeito das semelhanças físicas, e fizesse dos símios uma espécie tão diferente dos humanos como os humanos são diferentes das samambaias. É evidente que essa diferença capital extrapola o físico. Talvez você a chame de "alma". Talvez de "espírito". Para ser sincero, já ouvi dizer que essa parte abstrata está alojada na glândula pineal. Ou pode ser algo totalmente diferente disso, e a realidade que nos intriga é apenas circunstancial. Vai saber.

O que me preocupa é que, no livro de Pierre Boulle, lá pelas tantas descobre-se o real motivo da substituição dos humanos pelos macacos. Enquanto os macacos, pela própria natureza, são exímios imitadores, a humanidade, com o tempo, deixou de criar e também começou a imitar. O ser humano deixou de pensar e começou a imitar. E, entre semelhantes, venceu aquele mais habilitado para a função. No caso, o macaco.

Temos Bollywood. E temos Hollywood. E temos as novelas da Globo imitando os filmes estadunidenses. E tenho uma suspeita pessoal de que a cúpula da BHTrans, órgão da prefeitura reponsável pela administração do trânsito de Belo Horizonte, é composta por um bando de chimpanzés treinados. Não sei, é só uma suspeita. Mas vai saber...