sexta-feira, 22 de abril de 2011

As Múltiplas Faces do Leitor

Perguntam-me, e sei lá que pensamentos obscuros conspiram nas coxias dessas mentes inquisidoras, se vou postar resenhas literárias neste blog. Mesmo porque, devo resenhas de livros que prometi. A resposta é "sim, com ressalvas".
Fato é que não me sinto à vontade em me denominar resenhista. Não, não o sou. Tenho comigo que para assumir esse título e todas as responsabilidades inerentes a ele (coisa que muita gente, infelizmente, não faz...) é preciso ter alguns talentos que não considero meus. Por exemplo, cito o distanciamento entre obra e autor, principalmente se o autor é conhecido seu, e também os conhecimentos técnicos necessários por trás do ato de escrever. Tenho tudo isso sim, mas em um grau que considero insuficiente para resenhar com responsabilidade. Também observo que, assim como acontece com os filmes, o julgamento que faço é frequentemente influenciado pelo humor do dia, ou da época. No meu caso, flutua com os resultados do futebol, com a cotação do dólar ou com o máximo denominador comum entre meus sucessos ou fracassos no dia-a-dia da selva. E penso que uma resenha honesta deva ter embutido um grau respeitável de isenção e atemporalidade.
Como leitor, me vejo em camadas. Primeiro sou o leitor comum, sem dar a esse termo uma conotação qualitativa, e sim quantitativa. Leio por prazer, por esse comichão incontrolável que me carcome desde que, ainda muito criança, não esperei que me alfabetizassem para ler em voz alta a frase "Posto Piazza" na parede do posto de gasolina, ato milagroso que causou furor nas testemunhas, que devem ter achado estarem na presença de um futuro gênio ou messias, e passados tantos anos, diante dos resultados, nem quero imaginar o que estarão pensando agora sobre a pegadinha. Leio porque respiro, porque não tenho outra alternativa, e não sou capaz de me ver não lendo.
Na segunda camada, leio como escritor, realidade que se descortinou na medida em que comecei não apenas a escrever, mas também a estudar o escrever. Assim, enquanto degusto a trama, observo estilos de narrativa, de criação de personagens, o uso de clichês e de metáforas, etc. Procuro aprender com isso, e usar o que aprendi a meu modo, de acordo com minha conveniência, em meu próprio ato de escrever.
Terceiro, depois que cruzei a galáxia e comecei a fazer amigos escritores, leio como quem observa os filhos dos amigos, e fica pensando de quem esse guri puxou essa mania, quem o ensinou a fazer essa gracinha, e por que não lhe deram uns cascudos para que não fizesse essa birra horrorosa. Porque a obra lhe diz muito sobre o autor, queira ele ou não. Ler o autor através do livro é mais divertido do que ler as linhas da mão, coisa que aprendi única e exclusivamente com o propósito de pegar meninas. Mas isso é outra história.
Portanto, não me considero resenhista, mas vocês deverão encontrar aqui, caso interesse, uma ou outra resenha minha. Por favor, encarem a coisa como se estivéssemos sentados numa mesa de bar, diante do caneco e do prato de tiragosto, e eu estivesse contando de algo que li, e que gostei. Ou não. Saúde.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo blog, Flávio! Kick the can, man!

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  2. Valeu, Tibor! Tamos "kickando" na área...

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