sexta-feira, 4 de novembro de 2016

VADE CUM PAPA...


Esse aí, de calças vermelhas e cavanhaque diferentão, é o Max Mallmann. Fiel a seu estilo fora da Curva de Gauss, o Max esperou passar o "hype" do Dia de Finados e só depois, quando ninguém mais estava pensando nisso, pulou para o lado de lá da Matrix. Peste.

Dentre os ases da literatura fantástica nacional, Max foi um "top gun". Dentre suas obras literárias, destaco "Síndrome de Quimera", que lhe abriu as portas da editora Rocco, "Zigurate", e os dois primeiros volumes da agora inacabada trilogia de ficção histórica, "O Centésimo em Roma" e "As Mil Mortes de César", contando as desventuras de Desiderius Dolens, uma espécie de Groo romano deprimido. Na TV, Max participou como roteirista de diversas produções da Globo, como a novela "Coração de Estudante" e as séries "Carga Pesada", "A Grande Família" e "Chapa Quente".
O Max nunca contava vantagem desse sucesso todo. Não. Esse gaúcho exilado no Rio de Janeiro tinha um jeitão bem mineiro: come-quieto, trabalhando em silêncio. Seu tom de voz, sempre baixo, impunha o silêncio ao redor, porque todo mundo queria ouvir o que ele tinha a dizer. Sua risada meio soluçada, risada de gente meio doida, era um triunfo para mim, porque eu considero uma façanha fazer rir um cara com o senso de humor ácido, inteligente e certeiro como o dele. Como bem lembrou o Eduardo Torres, eu também nunca vi o Max levantar a voz agressivamente ou destratar ninguém; pelo contrário, já o vi escutar atentamente e oferecer palavras de conforto a pessoas que sofriam. 
Arrumou lá uma doença como ele, fora da Curva de Gauss, e brigou contra ela por dois anos com uma dignidade assombrosa. Mesmo. Em muitos momentos nem a porcaria da doença escapou de seu humor corrosivo, o que nos dava algum conforto, porque passava a ideia de que ele estava bem. Max, em sua generosa e irredutível gentileza, não queria incomodar. 
Eu me identificava muito com seu processo criativo na literatura, conversamos bastante sobre isso, o que me dava (e dá) a esperança de, um dia, ser uma fera das letras como ele foi. Max deixa um projeto de minissérie na Globo em andamento, uma ideia genial que merecia MUITO virar realidade, além do volume final da saga de Dolens, no qual trabalhava, e acredito que não tenha terminado. Mas todo escritor devia partir assim: deixando uma obra em andamento, assim como a pilha de livros que jamais vai conseguir terminar de ler. Isso dá a sensação de continuidade, de eternidade. Eternidade que nosso Max Mallmann conquistou, haja visto a consternação que sua partida precoce está causando no fandom, e o pedação da sua vida que, na forma de atos e palavras de bem, ele deixou, vivos, nas vidas de todos nós que tivemos o privilégio de conviver com ele. 
Dentre as tantas fotos que os amigos estão postando para homenageá-lo no Facebook, escolhi esta, do amigo Marcelo Augusto Galvão, porque ilustra bem como Max Mallmann viveu, e tenho certeza de que é como ele gostaria de nos ver agora: amizade, alegria, papos inteligentes, literatura na veia. 
Não sei se, a partir de hoje, é o Céu que fica mais bagunçado, ou o Inferno que fica mais doce. Mas onde estiver, irmão, permita-me parafrasear seu personagem mais carismático em minha despedida: "Vade cum Papa, Max."

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

RUMO À ETERNIDADE


     Se você nunca ouviu falar de Harlan Ellison, ou não gosta de ficção científica ou passou os últimos 50 anos preso em Talos IV. Trata-se de um dos mais importantes escritores de ficção científica e terror, de sua geração e de todas mais. Basta dizer que Ellison coleciona, além de diversos outros prêmios de destaque, nada menos que onze prêmios Hugo e cinco Nebula, as duas mais prestigiosas premiações da literatura de FC mundial. OK, mas você prefere histórias em quadrinhos de super-herois, certo? Saiba, então, que foi Ellison quem criou a saga de Jarella, uma das coadjuvantes mais marcantes das HQs do Incrível Hulk da Marvel. Entre as obras mais famosas desse escritor fabuloso, que, se não me engano, jamais havia sido publicado no Brasil, estão o conto  “I Have No Mouth, and I Must Scream” (1967) e a novela  "A Boy and His Dog" (1969), transformada em filme em 1975. Isso sem falar nos inúmeros roteiros para telesséries como Babylon 5, Outer Limits, A Noviça Voadora, O Homem da U.N.C.L.E., Jornada nas Estrelas, etc.
     É sobre esta última que queremos falar. Percebeu quando eu disse, acima, que Ellison jamais “havia sido” publicado por aqui? Bem, isso acaba de mudar de uma forma, para mim, inesperada. A editora Mythos lançou, neste mês de outubro de 2016, a versão em quadrinhos de “The City on the Edge of Forever” (Cidade à Beira da Eternidade), uma adaptação fiel do roteiro original de Harlan Ellison para aquele que é, na opinião da maioria dos fãs e na minha própria, o melhor dos 79 episódios da série clássica de Jornada nas Estrelas, um dos dois únicos episódios da franquia a ganharem um prêmio Hugo.  
     Um pouco de história: apesar da qualidade habitual do texto de Ellison, alguns elementos do roteiro desagradaram a Gene Roddenberry, criador de Jornada nas Estrelas, como, por exemplo, uma situação de comércio de drogas ilícitas a bordo da Enterprise. Roddenberry modificou extensamente o texto original até que se transformasse na versão que foi ao ar. Isso levou ao rompimento da relação entre os dois autores, e Ellison entrou para a seleta lista de desafetos de Gene, de quem passou a ser um crítico feroz. Curiosamente, assim como a versão adaptada de Roddenberry ganhou o Hugo em 1968, o roteiro original de Harlan Ellison ganhou, no mesmo ano, o Writers Guild Awards para melhor drama episódico na televisão. Tanto talento junto não merecia cair no esquecimento. Assim como o episódio da TV encontra-se à disposição em inglês e também aqui no Brasil, em DVD, blue-ray e, ocasionalmente, na TV paga, o roteiro de Ellison foi publicado nos EUA, como livro, em 1976. A adaptação em quadrinhos viu a luz apenas em 2014, pelas mãos habilidosas de Scott Tipton & David Tipton (roteiro adaptado) e J.K. Woodward (arte). Como eu disse, para meu total encantamento, a versão em português acaba de chegar ao Brasil, e às minhas mãos.
     Esta edição luxuosa e bem cuidada, em capa dura, traz, além da história, uma introdução e um posfácio escritos pelo próprio Ellison. Na parte inicial, para aguçar ainda mais nossa curiosidade, o escritor faz duas sinceras revelações sobre si mesmo: primeiro, que é uma pessoa muito difícil de se conviver; segundo, seu mais absoluto deslumbramento e emoção com relação a essa maravilhosa graphic novel, que, diferentemente do texto de Roddenberry, ele considera de uma fidelidade total ao roteiro que escreveu. Em suas palavras: “É a cidade à beira da eternidade da minha imaginação”.
     Ao final do livro, alguns extras: as capas originais das cinco edições que depois dariam origem a essa versão encadernada; uma demonstração detalhada do trabalho do artista na confecção de uma página, dos primeiros esboços a lápis até a versão colorida final; uma série muito legal de “easter eggs”, comentados pelos dois irmãos roteiristas.
     Resta-me falar sobre a história, pontuando alguns comentários sobre as diferenças entre as versões de Roddenberry e Ellison. O roteiro básico da trama: um tripulante da espaçonave Enterprise penetra em um portal do tempo, indo para na Terra, na Nova York do ano de 1930 (Grande Depressão). Ele modifica a História de forma a alterar todo o futuro. O capitão Kirk e o Sr. Spock seguem no seu encalço pela mesma via, com o objetivo de restaurar o fluxo do tempo ao que era originalmente.
     A famigerada situação do tráfico de drogas surge logo no início da graphic, pelas mãos de um tripulante chamado Beckwith. Embora Roddenberry tenha excluído esse elemento da história, possivelmente por considerá-lo inadequado para os padrões da TV dos anos 60s, penso que seria um adendo enriquecedor, caso a produção da série ocorresse nos dias atuais. Ellison, nas palavras do capitão Kirk em seu diário, retrata uma situação muito plausível que a franquia de TV jamais explorou em nenhuma de suas séries. Na TV, embora a missão das naves Enterprise seja sempre mergulhar no espaço desbravando o desconhecido, todos os tripulantes se comportam como se estivessem convivendo em seus próprios lares, ou num trabalho rotineiro na Terra. Desde os primórdios da exploração espacial pela humanidade, porém, sabemos que o espaço sideral desconhecido sempre deixou marcas profundas, para o bem ou para o mal, naqueles que se aventuraram por ele. Vários astronautas do mundo real atestam isso. Na versão brasileira da música “Starman” (David Bowie), gravada pela banda Nenhum de Nós (“Astronauta de Mármore”), o personagem diz: “Desculpe, estranho, eu voltei mais puro do céu”. Na graphic novel, Kirk diz em seu diário: “Quando deixamos a Terra, cada um dos 450 tripulantes da Enterprise foi considerado estável. Mas já se passaram dois anos... Dois anos de forte pressão. Realizamos sondagens mentais com frequência, mas sabemos que alguns estão mudados. Inclusive alguns podem ter se estragado: só descobriremos quando a rachadura ficar aparente...” Uma forma como esse estresse se manifesta na tripulação é a busca pelo alívio através das drogas; e, como toda demanda logo encontra uma oferta, surge o traficante Beckwith. Ponto para a HQ.
     Descoberto, o meliante se refugia no planeta abaixo, através do teletransporte. Enquanto na TV a nave era sacudida por “ondas cronais” no espaço que a atraíram ao planeta, na HQ trata-se de uma radiação proveniente do mesmo que faz os cronômetros correrem em reverso. Como sabemos, na TV Beckwith foi substituído pelo Dr. McCoy, após sofrer um acidente que o fez mergulhar num surto paranoico. Essa mudança no roteiro concentrou a espinha dorsal dramática da história na santíssima trindade Kirk/Spock/McCoy, o que vai convergir para um clímax de elevada carga dramática no fim do episódio. A meu ver, ponto para a TV.
      Kirk organiza seu grupo avançado e parte à procura de Beckwith; em vez de Uhura, a HQ traz uma ordenança Janice Rand muito mais ativa e determinada, como nunca se viu na série.
     O grupo se depara com um planeta totalmente morto e, seguindo as pegadas de Beckwith pelo deserto, chega a uma cordilheira de picos altos e escarpados, sobre a qual se veem as ruínas de uma enorme cidade. Kirk chama as ruínas de “uma cidade à beira da eternidade”, dando uma conotação totalmente diferente ao título da história em relação àquela imaginada por mim e por você.
     Em vez do conhecido arco vazado da TV, o “Guardião” da HQ é um grupo de seis velhos barbados, etéreos e fantasmagóricos, que a meu ver falam muito mais do que deveriam, às vezes na forma de “charadas”, as quais levarão Kirk e Spock, posteriormente, a identificar o “ponto focal” do tempo a ser corrigido. Achei as “dicas” desses guardiões forçadas, e me agradou mais a forma como, na TV, Spock chega a suas deduções resgatando imagens no fluxo do tempo através de sua “gambiarra”. Ponto para a TV, mas com uma ressalva: nunca engoli bem aquela traquitana construída com peças de rádio de 1930. Na HQ, Spock usa um tricorder funcionando no limite de sobrecarga, o que me pareceu mais plausível. Nesse aspecto, ponto para a HQ.
     Uma diferença importante, depois que o personagem fugitivo mergulha no fluxo do tempo: na TV, a Enterprise simplesmente desaparece, como se nunca tivesse existido por causa das alterações na História; na HQ, Kirk e o grupo avançado retornam à órbita, para bordo de uma nave chamada Condor, tripulada por piratas sanguinários. Enquanto Kirk e Spock partem em sua missão de resgate, o resto do grupo avançado fica sitiado na sala do teletransporte, prestes a ser invadida pelos bandidos. A TV poderia ter explorado esse elemento dramático de forma espetacular. Ponto para a HQ.
     Penso que tanto a versão da TV quanto a da HQ perdem um pouco em ritmo, de formas adequadas a sua própria mídia: na TV, a direção abusa escandalosamente dos closes nas fisionomias dos personagens, sobretudo nos momentos de tensão. Além disso, a movimentação em cena, muitas vezes, é lenta e burocrática, como quando McCoy surge, no planeta, de trás das pedras, ou quando os mendigos do abrigo de Edith Keeler se movimentam na fila do sopão. Parece uma cena de teatro, não de TV. Já na HQ há personagens secundários que quebram o ritmo por não acrescentarem muito à trama principal, como o zelador (e não Edith Keeler) que surpreende Kirk e Spock no porão do abrigo, ou o veterano de guerra que vende maçãs e informações a Kirk sobre a localização de Beckwith. Aqui ambas perdem ponto.
     Sobre Edith Keeler: embora seja muito parecida nas duas mídias, a versão live action da TV lhe deu mais graça e vivacidade. Também a forma como Kirk se envolve com ela ganhou nuances mais sutis, delicadas, enquanto na HQ esse envolvimento adquire uma intensidade e uma brusquidão estranhas, a ponto de gerar uma verdadeira “discussão de relação” entre Kirk e Spock. A propósito, o Spock da HQ tem algumas reações emocionais negativas, de rancor e desprezo, que não combinam com a conduta que o consagrou junto aos fãs da franquia. Ponto para a TV nisso.
     Por outro lado, a HQ acrescenta outro elemento que faria grande sucesso nos dias de hoje: confundido com um chinês, Spock é vítima de racismo explícito assim que desembarca em 1930, mostrando que esse tipo de recurso é usado como arma sempre que um grupo se vê na situação de “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Em 1930, a Grande Depressão; nos dias de hoje, as levas de refugiados das guerras no Oriente Médio invadindo a Europa. Ponto para ela.
     Não vou comentar sobre o clímax dramático que ocorre na solução final da trama, que até hoje me traz lágrimas aos olhos, porque em nenhuma das duas mídias esse final merece um spoiler. Entretanto, devo declarar que um pequeno detalhe, que difere um final do outro, me faz dar DEZ pontos para a versão televisiva, em vez da versão em quadrinhos. É ler e conferir. Nesse ponto, Roddenberry brilhou. Nem o castigo digno de um Prometeu que recai sobre o vilão Beckwith me faz reverter esse ponto para a HQ.

     Minha conclusão é de que ambas as versões, a de Ellison e a de Roddenberry, merecem ser conhecidas pelos fãs e pelos não-fãs de Jornada nas Estrelas. Ambas foram premiadas com todo mérito em seu tempo. A despeito do rompimento entre os autores, as duas obras se unem, potencializando as qualidades uma da outra, para elevar  “A Cidade à Beira da Eternidade” e os gênios por trás de sua criação ao patamar de imortais, através de suas obras-primas. Perca isso, leitor, e você merece uma estadia prolongada na prisão klingon de Rura-Penthe.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

FESTA ESTRANHA COM GENTE ESQUISITA...


     Pessoas com quem converso provavelmente já me ouviram dizer algo que, sob minha ótica, se torna cada vez mais uma verdade incontestável: ainda que se possa questionar a qualidade da cultura estadunidense, se colocada em perspectiva contra diversas culturas europeias e mesmo latino-americanas, em um aspecto eles são mestres absolutos: o entretenimento.
     Entre os dias 9 e 16 de janeiro último, tive a rara oportunidade de participar de um evento memorável: o primeiro (e talvez único) cruzeiro marítimo Disney Star Wars, que abrangeu a programação habitual do cruzeiro Disney (navio Disney Fantasy), acrescida de um “Day at Sea” especial, dedicado inteiramente a Star Wars.
     Como de costume, a potência Disney fagocitou uma franquia rentável, mas que parecia fadada à estagnação e à condição de “caça-níqueis” a longo prazo, e reinventou-a dentro do “padrão Disney”. Antes foram a Pixar, a Marvel, e agora é Star Wars. O “Day at Sea” fez parte dessa campanha multimilionária de revitalização, quase simultâneo com o lançamento do novo filme da franquia nos cinemas. E eu disse “rara” oportunidade porque, de acordo com uma fala do Diretor de Eventos do navio, na abertura de um dos shows a bordo, esta foi apenas a oitava vez que um cruzeiro Disney teve uma viagem temática. Para se ter uma ideia, os cruzeiros acontecem em diversas viagens em quatro transatlânticos, durante todo o ano, desde a primeira viagem do Disney Magic em 30 de julho de 1988.
     O cruzeiro tinha o seguinte roteiro: Port Canaveral (dia 1), alto mar (dia 2), Cozumel (dia 3), Grand Cayman (dia 4), Star Wars Day at Sea (dia 5), alto mar (dia 6), Castaway Cay (dia 7), Port Canaveral (dia 8). Estaria demais, embora fosse merecido, discorrer aqui sobre por que participar de um cruzeiro Disney é uma experiência que todo mundo deveria tentar viver, seja casado, solteiro, com filhos pequenos ou grandes, jovem ou idoso. Essa viagem, em particular, teve esse temperinho especial, e é sobre ele que quero falar aqui: Star Wars!
     O embarque em Port Canaveral já deixava perceber que seria uma viagem diferente. Por todos os lados eu via pessoas, MUITAS pessoas, desde crianças pequenas até idosos, vestindo camisetas, mochilas e outros adereços fazendo referência à série criada por George Lucas. À minha frente, uma senhora subia as escadas rolantes completamente vestida de R2D2. Vale destacar que o Disney Fantasy zarpou lotado, e tem capacidade para, além de seus 1500 tripulantes, abrigar 4000 passageiros. Pelos meus cálculos empíricos, frutos da observação ao longo de sete dias, cerca de 80% ou mais da lotação do navio era de fãs de Star Wars, incluindo os pequenos padawans em processo de assimilação. Não sei se isso fez dessa viagem a maior reunião de fãs da franquia de todos os tempos, mas com certeza foi a única com tais características: milhares de fãs entre 1 e 95 anos, felizes e explicitamente entregues, em tempo integral, ao seu objeto de adoração.
                                                                Duas vovós ewoks
     Outra característica relevante de um cruzeiro Disney é que você recebe a cada noite, em sua cabine, um exemplar do jornal “Personal Navigator”, contendo uma programação de tudo que acontecerá no navio no dia seguinte. Imaginem minha excitação na terça-feira à noite, véspera do Star Wars Day, recebendo o cronograma. Algo, de cara, me chamou a atenção: nos boletins anteriores constava sempre uma descrição detalhada da localização exata de cada personagem Disney dentro do navio, para que se tirassem as tradicionais fotos & autógrafos. Por exemplo: “Mickey Mouse estará no deck 4 (balcão), entre 9:00AM e 9:30AM”. No caso do Star Wars Day, isso foi substituído por uma extensa faixa, entre 8:30AM e 1:30PM, com os dizeres: “Procure alguns de seus personagens favoritos de Star Wars nos decks 3, 4 e 5.”
     A surpresa inicial foi seguida pela compreensão acerca da genialidade dos organizadores. Num cruzeiro Disney minimizam-se as filas o máximo possível, para evitar aglomerações e tumultos nos decks. Cada personagem fica disponível por 15 minutos para fotos, em diversas seções ao longo da semana, exceção feita para celebridades VIPs como Mickey ou as princesas, que se exibiam por meia hora de cada vez. Agora imagine os personagens de Star Wars, dando as caras durante UM ÚNICO DIA, num navio lotado por mais de 3000 fãs! Assim, não se marcaram seções. Você, como bom seguidor da Força, deveria perambular pelos corredores dos decks esperando aleatoriamente encontrar seus ídolos. O que, confesso, foi muito mais divertido!
     Às 8:30AM, a família toda adormecida, abri a porta da cabine acusticamente isolada e saí para o corredor do deck 7, onde fui acolhido amorosamente pelos acordes da maravilhosa e conhecidíssima trilha sonora composta por John Williams, que tocou nos autofalantes do navio durante o dia inteiro. Segui para o tradicional café da manhã no restaurante Cabanas, no deck 11. Enquanto comia, ouvi o primeiro comunicado do comandante. A cada dia alguém da tripulação usava o sistema de som para anunciar atividades, condições do clima, etc. Nesse dia, o que ouvi foi algo mais ou menos assim: “Aqui fala o comandante do cruzador estelar imperial. Comunico que Lord Darth Vader já se encontra a bordo, e alguns felizardos terão a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente”.
                                                           Com a "autoridade a bordo"
   Vale acrescentar que, diante das piscinas infantis, existe um gigantesco telão de cinema, que normalmente exibe desenhos Disney, como “A Dama e o Vagabundo”. No Star Wars Day o telão exibiu, o dia inteiro, episódios da série animada “Rebels”, vez por outra interrompidos pela imagem do tal “comandante de cruzador imperial”, devidamente trajado em sua ponte de comando, anunciando presenças ilustres ou alertando contra a possível presença de rebeldes a bordo. Nessas piscinas, duas vezes pela manhã e uma à tarde, ocorreram as “pool patrols”: grupos de stormtroopers surgiam no meio das pessoas procurando por eventuais rebeldes, em alguns momentos encenando “gags” que, imaginei, tinham sido boladas por eles mesmos. Apesar do sol forte, do calor e daquele bando de gente assediando em trajes de banho, o bom humor dos soldados do Império exalava claramente das armaduras mal-encaradas. Enquanto isso, do alto das torres do navio, os passageiros eram desafiados por Bobba Fett (numa sessão) e assistiam os apuros de R2D2 e C3PO (em outra). 
                                                                        Pool patrol
     Durante a semana, todos os seis filmes antigos da saga foram exibidos nos dois principais cinemas de bordo. No Star Wars Day, tivemos uma sessão de “O retorno de Jedi” e seis sessões do novo filme, “Star Wars – The Force Awakens”. Tive a oportunidade de rever o filme, novamente em 3D, numa dessas sessões. Foi emocionante viver isso num cinema lotado por fãs devotos. Sabres de luz, copos de bebida na forma de BB-8, Chewbacca ou Bobba Fett, baldes de pipoca em forma de Darth Vader ou tie-fighter, aplausos respeitosos no momento da aparição, na tela, de cada um dos personagens principais da primeira trilogia.
     Falando em emoção, uma outra atividade, que teve cinco sessões ao longo do dia no “Walt Disney Theatre”, principal cinema do navio, também me emocionou de verdade: uma amostra do  “Trials of the Temple”, atração de Star Wars que faz parte do novo pacote do parque dos estúdios Universal, em Orlando. Grupos de crianças entre 3 e 10 anos foram divididos ao longo das cinco sessões. Inicialmente, um mestre jedi (adulto) proferia uma breve palestra sobre a Força; no subtexto evidente, lições sobre tolerância e convivência pacífica, dicas sobre o uso dos recursos íntimos em prol do bem e daquilo que se sonha alcançar. Em seguida cada criança, em trajes de padawan e empunhando um sabre de luz verde, recebia lições práticas de uma sequência de quatro golpes numa luta de sabres de luz. Então eram convocados para, usando a Força, ajudarem a revelar um templo jedi oculto numa floresta, que surgia no palco diante dos nossos olhos. Só que desse templo emergia ninguém menos que Darth Vader em pessoa! No palco, um de cada vez, cada menino ou menina era chamado para um combate individual com o Lorde Sith, fazendo uso dos quatro golpes que já haviam treinado. Ao final, no momento mais crítico do conflito, o grupo era salvo pela voz “etérea” do Mestre Yoda, e conseguia banir o vilão definitivamente. Em uma palavra: mágico.
                                                                  Padawan em ação
     Outras atividades dignas de nota ao longo desse dia memorável: “Padawan Crafts”: trabalhos manuais e desenhos feitos por crianças com menos de 14 anos com a temática Star Wars; “Galaxy Designers”: lições sobre como construir naves de Star Wars, também para crianças; “Padawan Mind Challenge” e “Star Wars Superfan Contest”, dois desafios tipo “trivia” com dois níveis de dificuldade. O último foi empolgante: só gente que, pela idade, deve ter visto todos os filmes no cinema (não imagino quantas vezes), respondendo desde quem é o comandante da Rebelião na primeira trilogia até o número da cela da Princesa Leia na Estrela da Morte. Alguns caras reproduziam de cor inúmeras falas importantes do filme, vírgula a vírgula.
     Na parte da tarde, ocorreu no hall principal do deck 3 o “Guest Costume Celebration”. Foi a confraternização de todos os passageiros que aderiram ao cosplay, divididos em três blocos: a turma do Bem, o Lado Negro da Força e os aliens. Estavam lá, impecáveis, Darth Maul, alguns Kylo Rens, o Imperador Palpatine, um maravilhoso Obi-wan Kenobi e até Jabba, the Hutt.
                                            Aprendendo uns macetes da Força com o Mestre
     Ás 7:15PM (detalhe: num cruzeiro Disney NADA atrasa sequer dez minutos, nunca...) começou no deck 11 “Saga – Tales from a Galaxy far, far away”, quando dois narradores recontaram os três filmes da primeira trilogia com uma atuação simultânea dos personagens no palco, cujos “atores” foram escolhidos de improviso ali mesmo, na hora, no meio da audiência. Hilariante. Imediatamente em seguida começou a “Galactic Dance Party”, quando um DJ tocou exclusivamente versões remix dançantes, espetaculares, da trilha sonora de Star Wars, com exibição, no telão, de imagens computadorizadas inspiradas nos filmes.
     Esse dia espetacular terminou às 10:30PM com “Summon the Force”, um espetáculo magistral no deck 11, com a presença de todos os personagens “oficiais” a bordo, seguido de um belo show de fogos de artifício. Depois disso, mais uma sessão de “Galactic Dance Party” que foi até a meia-noite.
    Ah, meu encontro com personagens? Dei sorte em meu garimpo. Logo de início, andando rápido por um corredor deserto, quase trombei numa esquina com um guarda gamorreano, aqueles do palácio do Jabba. Meu grito de excitação fez uma tripulante rir: “parece que o senhor ganhou seu dia”. Mal sabia ela. Em seguida, também me encontrei com uma sensualíssima Zam Wesell. Dois oficiais da Estrela da Morte, uniformizados, passaram por mim confabulando em pose marcial e tom grave, mas não se furtaram a tirar fotos. Isso era legal: todos os atores estavam concentrados, imersos nos personagens, porém conservavam uma cordialidade e delicadeza impecáveis para com os fãs. Seguiram-se Darth Vader, Kylo Ren (que exibiu uma paciência e amabilidade incompatíveis com o Lado Negro), stormtroopers, soldados imperiais, jawas, dois engraçadíssimos exemplares do Povo da Areia de Tatooine, Bobba Fett... Pelo que vi no show final, apenas me escaparam os droides e Mara Jade, mas também encontrei cosplays espetaculares, como Obi-wan, Darth Maul, Palpatine, Chewbacca, além de jedis e siths de todas as idades.
                                                                   Com "O Cara"
     Nem é preciso dizer que, durante toda a semana, as três megalojas do navio venderam todo tipo de merchandise, de bolsas térmicas temáticas a fantasias completas, passando por sabres de luz e bonecos. Foi lançada uma série de cinco pins exclusivos, e você podia confeccionar um crachá contendo sua designação (jedi, imperial, rebelde, ou nativo de diversos planetas) e seu nome escrito em Aurebesh. O artista que bolou toda a arte do merchandise do “Day at Sea”, John Henselmeyer, fez uma exposição de arte.
                                                         Crachá do jedi "Flávio Solo"
     Resta mencionar aqui uma palestra instrutiva com Wendy Anderson, “Imagineering Executive Creative Director” de Star Wars nos parques Disney. Tudo bem que ela “escondeu o ouro”, resistindo a falar muito sobre o Star Wars World, maior “extensão” dos parques temáticos da Disney, a ser construído tanto em Orlando quanto na Costa Oeste, mas pude conversar brevemente com ela após a palestra e perguntei se não havia planos para a América Latina. Ela me disse que infelizmente não, mas sabia que no Brasil havia uma enorme quantidade de fãs de Star Wars, e prometeu “dar uma força” em nosso nome junto aos executivos. Saí com a sensação de que tudo é possível para a Disney, se houver vislumbre de lucro na jogada, mas que, diante do papel que nosso país anda prestando junto à comunidade econômica mundial, penso que nossas chances melhorarão no dia em que, digamos, os rebeldes conseguirem derrotar o Império.
                                                                Wendy Anderson
     Em resumo, foi a viagem perfeita para todo e qualquer turista, seja ou não fã da Disney e de Star Wars. Juntando tudo isso, como no meu caso, foi inesquecível. Não sabemos se haverá novas oportunidades. Wendy Anderson disse que a possibilidade de novos “Star Wars Day at Sea” está “em negociações”. De qualquer forma, tenho certeza de que a primeira experiência deve ter impressionado muito bem o pessoal da Disney. E, como sabemos, “money talks”. Assim sendo, vamos torcer. Que a Força esteja conosco.


domingo, 20 de setembro de 2015

MAURICIO DE SOUSA É STEAMPUNK!

     A descoberta de um mineral raríssimo, capaz de produzir, de forma barata, energia térmica e mecânica na forma de vapor, proporciona um salto tecnológico na vida de uma primitiva civilização, dando origem a maravilhas como as “naus voadoras”. Quando esse mineral começa a escassear, transforma-se em objeto de conflito entre duas facções daquela civilização, numa trama política repleta de ação e reviravoltas.
     Você deve concordar comigo que essa é uma base bem sugestiva para um bom romance steampunk, desses que proliferam e se alastram como nuvens aquecidas de vapor no meio contemporâneo da literatura fantástica nacional. O que você jamais adivinharia é que esse é o “plot” básico do álbum gráfico “Turma da Mata - Muralha”, da coleção “Graphic MSP” que a equipe de Mauricio de Sousa tem produzido com competência extraordinária, capitaneada pelo genial Sidney Gusman.


     Sim, aqueles animaizinhos antropomórficos que viviam na Mata do Chapadão, e que você lia nos gibis da Turma da Mônica, agora ganham uma versão revitalizada, num “antropomorfismo” e num texto direcionados a um público mais maduro, o que é a premissa básica da coleção “Graphic MSP”. Ah,e também é steampunk!
     O texto é de Artur Fujita, os desenhos do veteraníssimo Roger Cruz, e as cores de Davi Calil, um time afinadíssimo e escolhido a dedo para este que passa ser, para mim, o melhor de todos os álbuns já lançados da coleção, desbancando “Piteco”, do Shiko (bem, de todos os lançados só me falta adquirir – e ler – um álbum, então isso é bem significativo).
     Falando em “Piteco”, recordo nitidamente de um FIQ, em Belo Horizonte, quando o Sidney Gusman me mostrou os primeiros esboços gráficos do que viria a ser, no ano seguinte, a coleção MSP. Na época não era mais que um projeto, mas lembro-me bem de minha reação: “Sidão, isso VAI SER um sucesso! Isso SIM é renovação!” E a imagem que mais me marcou foi exatamente a da graphic do Piteco. Tempos depois, quando li o álbum pronto, ficou sendo meu preferido. Senti uma enorme gratidão ao Sidney e ao Mauricio; eu, que cresci aprendendo a ler nas páginas de Mônica e Cebolinha, e que acabei abandonando os títulos na medida em que envelheci, e passei a me interessar por outro patamar de livros e quadrinhos, senti a alegria de poder voltar àqueles velhos personagens, agora amadurecidos e adequados especialmente a mim e ao público que, como eu, cresceu, e sentia, em algum lugar lá no fundo, alguma saudade dos velhos amigos distantes.
     A essência da Turma da Mata está lá: a natureza doce e tímida do elefante verde Jotalhão (sem faltar a piadinha fazendo referência à massa de tomate...), a tensão romântica entre ele e Rita Najura, recriando a velhissíssima piada da formiguinha e do elefante que já divertia nas HQs infantis, o gênio tecnológico do Tarugo, que agora, em vez de um casco com teto solar e rodas, pilota um exoesqueleto de combate steam. O Coelho Caolho fica caolho de verdade, convertido num guerreiro veterano. Mas o legal, aparte da respeitosa manutenção dessas referências, foi que Fujita e Cruz foram capazes de dar uma densidade bem maior aos personagens, assim como à dinâmica entre eles.

     Esse álbum, nacional da gema, reproduziu dentro de mim o mesmo encanto que senti quando degustei a série (também de animais antropomórficos) “Blacksad”, dos espanhóis Juan Días Canales e Juanjo Guarnido, publicada pela francesa Dargaud, e que chegou a ter uns poucos álbuns lançados no Brasil.
     Amigo Sidão, esse merece sequência. Merece virar série regular. Não, merece virar animação. Sei que você é um cara que pensa grande. Pois fique aí, com mais essa minhoquinha dentro da mente. E obrigado, mais uma vez!





     

terça-feira, 18 de agosto de 2015

E AÍ, RECONHECEU?...

         




         E aí, reconheceu o cara? É, esse de camiseta branca, agachado, no canto direito da foto! Eu te digo quem ele é. Ou era...
     Ele trabalhava numa montadora de automóveis. Foi pego de surpresa na onda gigantesca, o tsunami de demissões que varreu o país na medida em que a crise (lembra da “marolinha”?...) explodiu. Poupança ele quase não tinha, e as migalhas que restavam a inflação comeu. Acabou o dinheiro, e não teve como pagar as prestações da casinha própria que ele comprava com tanto esforço e sacrifício. O carro e a geladeira, adquiridos em prestações a perder de vista, também lhe foram tomados, junto com sua dignidade.
     Sua esposa era diabética. Um dia, não encontrou a insulina de que precisava no posto de saúde. “Estava em falta”, lhe disseram, e o privilégio não era dela não, era no país todo. Como ele, demitido, perdeu o plano de saúde, no dia em que ela passou mal teve de recorrer a um posto do SUS. Foi atendida por um cubano, que lhe disseram que era médico, e que lhe prescreveu uma dose absurda de insulina, que ela comprou na farmácia com seus últimos trocados. A esposa morreu.
     Os dois filhos, com os cortes e atrasos no dinheiro do crédito educativo, tiveram de largar a escola. Não que perdessem grande coisa, já que o governo dessa Pátria Educadora cortou bilhões do orçamento para a educação, piorando a situação das escolas já sucateadas, ocupadas por professores mal preparados e pior remunerados. Os meninos estão em algum lugar por aí nas ruas, como ele, nas ruas deste país que – lhe disseram certa vez – “erradicou a miséria”.

     Nesta foto, ele está agradecendo às pessoas de amarelo. Ele sabe que elas saíram de suas casas aos milhares, sem ganhar por isso nem um churrasquinho, nem mesmo um pão com mortadela, para protestar por um país melhor, mais digno, para todos, inclusive para ele. Ele dá valor a esse ato, porque sabe que nem todo mundo é capaz disso. Tem aquelas pessoas que um dia votaram no partido que era “pelos pobres” e que hoje ocupa o governo federal. Ele sabe que aquelas pessoas se recusam a participar desse “golpe” das manifestações, como dizem, mas que não dispensam seu choppinho na balada dos finais de semana, enquanto ele está ali, sem ter o que comer. Por dentro, entretanto – ele pensa – sofrem de uma miséria moral tão grande quanto a que ele ostenta do lado de fora. Ou será maior? Que tragédia! Ele tem pena dessa gente, o cara de branco...

quarta-feira, 3 de junho de 2015

TRIBUTO AO FANDOM

 

Eis que, de tanto falar em algumas postagens da comunidade de ficção científica sobre o tal “fandom”, alguém acaba me perguntando que diabo de coisa é essa. De fato, que falta de atenção a minha, isso merece uma explicação. Fica, dessa forma, matando aqueles pobres dois coelhos com uma caixa d’água só, minha homenagem a ele:

     O fandom é uma velha caquética, retrógrada, moralista e mal-humorada. O fandom é o caldo onde se diluem as almas, restando o grumo sólido de sua parte mais dura. O fandom é a antítese. O fandom recua. O fandom wanna be. O fandom torce o nariz quando fala “fandom”. O fandom vende a mãe, mas não entrega. O fandom é a criatura de Frankenstein. É Dorian Gray. É Mister Hyde. É algo babando embaixo da cama. O fandom é o espaço escuro, onde brilham, vez por outra, esparsas estrelas. O fandom é o adubo fermentado e fétido de fezes onde, aqui e ali, florescem formosas flores. O fandom encarou a Medusa. O fandom fica espiando pela greta, de trás da porta. O fandom se desvanece em todas as direções quando acende a luz. O fandom é o populacho reunido em torno do cadafalso. O fandom ergue estátuas para falsos deuses. E depois as derruba. O fandom afaga e apedreja. O fandom absorve e cospe. O fandom pesa. O fandom é campeão moral. O fandom, quando ninguém está olhando, coloca meleca embaixo da cadeira. O fandom peida no elevador. O fandom são as águas que se abrem à passagem dos justos. O fandom sabe o mal que se esconde no coração dos homens. Ou acha que sabe. O fandom vai ao samba vestindo casemira inglesa. Toma chope em copo de uísque. Faz caixote para transportar banana de palanque. O fandom é uma rede social sem internet. O fandom é retrofuturista. O fandom é uma viúva inconsolável. O fandom é o mais desesperado dos náufragos. O fandom chora e não mama. O fandom quer ir pro céu, mas não quer morrer. O fandom se minioniza. O fandom mimetiza. O fandom é o bicho da goiaba. O fandom vê gente morta. O tempo todo. O fandom nunca esquece. O fandom sempre paga suas dívidas. O fandom atira primeiro. O fandom grita “lobo”. O fandom come a vovozinha. O fandom especula. O fandom se infiltra. O fandom come feijão com arroz como se fosse um príncipe. Vocês vão ter de engolir o fandom. O fandom odeia montanhas. Quando encontra uma, crava sua bandeira no topo. O fandom é um rabo de elefante achando que é cabeça de formiga. O fandom matou a família e foi ao cinema. O fandom fala de si na terceira pessoa. O fandom é paparazzo. Fandom não perdoa, mata. O fandom diz que, depois deles, não apareceu mais ninguém. O fandom é o tigre no bote salva-vidas. O fandom é a mancha de umidade no gesso do teto. O fandom dói quando você bebe gelado ou quente. O fandom cobra couvert. O fandom pediu Barrabás. No fandom, ninguém vai te ouvir gritar. O fandom é o sangue descendo pelo ralo. O fandom se lembra. O fandom está morto. Vida longa ao fandom!


quinta-feira, 30 de abril de 2015

BURROCRACIA


Antes de começar a ler, saiba que esta crônica é a transcrição quase literal de um fato verídico. Aconteceu comigo, no dia 23/4/15.

     Necessitando de um demonstrativo de uma de minhas fontes pagadoras para o Imposto de Renda, recorri ao site. Hoje em dia a maioria dessas coisas se resolve “on line”, viva a ciência. No caso, porém, o site me pedia um certo “código verificador” que eu não tinha. Conformado, fui pessoalmente ao departamento de RH do hospital.

     “Aqui não tem jeito”, me explicam. “O senhor vai ter de ir ao posto UAI na Praça Sete.”

     O “Posto UAI” é aquele lugar onde você tira qualquer documento, paga multa de trânsito, etc. Um “Asilo Arkham Para Criminosos Insanos” da burocracia. Estou no horário do almoço. Olho o relógio, emito um suspiro e vou.

     Passo pelo balcão de Informações. Sou orientado a seguir por um labirinto de corredores de deixar o Minotauro doido, e chego ao setor correto. O número da senha me desanima. Tem mais de vinte pessoas na minha frente. Mas são muitos atendentes, então a coisa anda melhor do que eu imaginava.

     Mas tem os “preferenciais”. Já que ninguém está ouvindo meus pensamentos, permito-me ser politicamente incorreto. Esse monte de velho passando na minha frente faria sentido numa fila, de pé, sofrimento justificado. Aqui está todo mundo sentado em cadeiras confortáveis. Tem ar condicionado. Estou no meu horário de almoço, que se escoa dolorosamente. Esses velhos vão sair daqui e voltar para casa. Ou entrar uma agência de banco para bater papo com o caixa e atrasar alguma outra fila. Ou jogar dominó na praça. Preferencial sou eu, caramba! Um velho passa exatamente na frente do meu número, e o cabelo dele é menos grisalho que o meu.

     Sou chamado ao balcão depois de uns quarenta minutos.

     “Um documento com foto, por favor”, pede a moça, laconicamente. Apresento minha Identidade Profissional. Ela olha e torce o nariz.

     “Tem algum mais recente?”

     “Moça, isso aí é minha identidade. Vale até eu morrer.” Mostro a ela onde está escrito: “Documento de identidade nos termos da Lei número 6.206/75”.

     “Certo, senhor, mas temos ordens de não aceitar documento com mais de dez anos de validade. O senhor não tem carteira de motorista?”

     Tenho, e mostro a ela, aliviado. Ela torce o nariz de novo.

     “Está vencida.”

     “Como assim, moça?”

     Ela me mostra. De fato, minha habilitação venceu em 22/02/2015, e eu nem vi.

     “Moça, tudo bem que está vencida, mas a outra não vence. É minha identidade...”

     “Infelizmente não posso aceitar, senhor.”

     Começo a ficar nervoso.

     “Tem alguém aqui com mais bom senso, com quem eu possa falar sobre isso?”

     “O senhor pode tentar na Coordenação, descendo o segundo lance de escadas, o balcão de vidro.”

     Vejo no olhar e no sorriso torto o que ela está me dizendo com seus pensamentos: “Você jamais vai sair daqui hoje com esse documento. Perdeu, playboy, cadê seu deus agora? Rá rá!”

     Assim mesmo vou à Coordenação, onde sou atendido por um gordinho simpático. Explico de novo o absurdo da situação:

     “Essa é minha identidade, de acordo com a...”

     “Lei número 6.206/75. Sei.”

     Desconfio que não estou fazendo uma reclamação original. Isso não é bom.

     “Infelizmente não podemos aceitar documentos antigos. O documento serve para que se reconheça o usuário pela foto...”

     Coloco meu documento, foto para a frente, do ladinho do meu rosto, junto ao vidro.

     “Olha a foto. Olha para mim. Sou eu, amigo.”

     Ele faz beiço. Franze a testa.

     “Hummm... Tem diferenças...”

     “Que diferenças, companheiro? Sou eu, claramente!”

    “Hummm... O cabelo está mais branco.”

     Lembro-me do velho de cabelos escuros que passou na minha frente lá atrás. Deve ser veterano nesse hospício. Velho maldito.

     “Ah, seu eu soubesse que teria de vir aqui, teria pintado os cabelos, mas foi uma coisa inesperada! Você tá de brincadeira, né? E se eu fosse mulher? Mulher pinta e corta cabelo todo mês!”

     “É, se fosse o caso, ia ter problema também. O senhor precisa entender que isso é para sua segurança, para que ninguém possa usar um documento seu para abrir uma conta no banco, ou...”

     “Rapaz, eu só quero um demonstrativo para o Imposto de Renda, só isso! É para pagar, não é para ganhar dinheiro nenhum! Vou te dar meu cartão. Sou oftalmologista, vou te passar uns óculos e você vai ver que este aqui sou eu!”

     “O senhor não tem outro documento?”

     Mostro a carteira de habilitação vencida.

     “Ah, esse é o senhor! Viu? Não é questão de óculos...”

     “A diferença é que nesta foto estou mais gordo. Só isso. Pode falar, não vou me ofender. Mais gordo. Esta serve, então?”

     “Infelizmente não. Como o senhor disse, está vencida.”

     “Por dois meses, companheiro! Escute... tem alguém mais razoável acima de você para conversar comigo?”

     “Não senhor. O plantão sou eu e meu colega.”

     Ele aponta por sobre o ombro, para o rapazinho cujo penteado, certamente, é para homenagear o Neymar. Duvido que seja o mesmo penteado da sua carteira de identidade. Resolvo jogar a batata quente para ele:

     “OK. Preciso desse documento para o IR. O que você me sugere?”

     “O senhor pode tirar uma nova via de sua carteira de identidade...”

    “Amigo, NÃO VAI DAR TEMPO! É para o fim deste mês.”

    “São cinco dias úteis para um documento novo. Se o senhor for lá hoje...”

     “Cara, vocês já comeram TODO o meu horário de almoço! Tenho de trabalhar! Não posso ir lá hoje! Veja só: vou fazer uma ocorrência policial. Se tiver problemas com a Receita Federal por causa dessa idiotice, vou explicar que vocês é que se recusaram a aceitar minha carteira de identidade...”

     Ele se embatuca um pouco.

     “Não, não, não precisa disso... Veja bem”, segreda ele, aproximando-se e falando baixo: “O senhor pode usar uma procuração.”

     “Como assim?”

     “O senhor deve ter um advogado, ou alguém que cuida de suas coisas. Faz uma procuração, reconhece firma no cartório, e a pessoa pode pegar seu papel usando os documentos dela. Estou te dando uma dica por fora da curva, entendeu?”

     Olho para ele, sério. Ele não está brincando. Incrível. Agradeço e vou embora.

     Chegando em casa, comento o caso e ninguém acredita. Mas minha cunhada, também médica, faz uma observação:

     “Peraí, mas um tempo atrás o CRM mudou o layout do documento, e trocou todas as carteiras. Tem de ter uma data de expedição nova!”

     Vou conferir, e é verdade. Do lado da data de expedição original tem uma NOVA data de expedição do documento: 26/7/2012! Não acredito que não me lembrei do detalhe. E que nenhum dos malditos daquela repartição viu isso.

     No dia seguinte, hora do almoço, retorno ao Posto UAI. Decidi não mencionar o que aconteceu na véspera, pronto para esfregar minha data de expedição na fuça do primeiro idiota que me questionar a respeito. Dessa vez cheguei mais cedo, e só havia uns dez na minha frente. Poucos velhos também. Promissor.

     A moça que me atende, uma diferente do dia anterior, me pede o documento com foto. Entrego a Identidade Profissional. Ela olha a foto, olha minha cara, e nem questiona. Vai lá na impressora e volta com meu documento para o Imposto de Renda, segundos depois.

     Limito-me a descrever os fatos, porque não sei o que mais comentar. Não sei o que dizer sobre essa sandice, além do que aconteceu. E fiz questão de destacar, no início, que foram fatos reais. Se não aviso, como escritor de ficção, vocês vão dizer que estou apelando na fantasia. Não estou.