domingo, 14 de outubro de 2018

O FANTASMA DO NATAL PASSADO, O FANTASMA DO NATAL FUTURO...



O ano de 2015 foi um ano triste para a ficção científica anglofônica. A polarização política entre esquerda e direita, ou Democratas e Republicanos, já se refletia há tempos no mercado literário de FC. A verdade é que a ideologia era apenas a roupagem, a “justificativa” para lotear e dominar um mercado muito lucrativo desse gênero de literatura. Como no campo político, era a esquerda que dominava o status quo. Usando a velha artimanha de “acolher” as reivindicações das diversas minorias, editoras ideologicamente afinadas com o governo Obama começaram a dominar o mercado. Num site de uma dessas editoras, eu mesmo vi, nas guidelines para submissão de originais, a frase “estimulamos a submissão de pessoas pertencentes a grupos minoritários que se sintam discriminados”, ou coisa parecida. Nada contra uma empresa privada ter sua própria orientação ideológica; o problema é que, para prêmios relevantes de alcance nacional dentro da literatura, como o Prêmio Hugo (o mais importante nos EUA), começaram a se formar lobbies para “vitaminar” a indicação dos autores “de esquerda”, trabalhando nos bastidores para boicotar os autores “de direita”.
     Em 2015 veio a reação. Um pequeno grupo “não alinhado” elaborou um protesto sob o nome de “Sad Puppies”, e iniciou um lobby para alavancar os autores “de direita”, pegando o mercado de surpresa e conquistando uma participação expressiva no grupo de finalistas do Prêmio Hugo. O grande erro desse grupo foi, a fim de aumentar o número de votos, aceitar sua associação a outro grupo, denominado “Rabid Puppies”, estes sim, formado por pessoas violentas e de extrema-direita, atuantes no mercado de games para computador. A esquerda, é claro, reuniu os dois grupos num mesmo pacote, e a guerra declarada começou.
     Esse triste episódio, chamado por muitos de “Puppygate”, culminou na cerimônia de entrega do prêmio Hugo 2015. Os acontecimentos são de um nível de baixaria capaz de deixar os produtores de certos programas vespertinos da TV aberta brasileira corados de vergonha. Não vou entrar em detalhes para não perder o foco, mas a conclusão é que foi um momento muito triste e traumático para o mercado literário de ficção científica em língua inglesa. Acompanhei tudo isso de perto, por já ser, naquele tempo, participante da SFWA (Science Fiction & Fantasy Writers Association), a principal associação de escritores do gênero nos EUA, que movimenta mais de um milhão de dólares ao ano apenas promovendo a FC, valor de deixar qualquer autorzinho tupiniquim com os olhos brilhando.
     E aí chegamos ao ponto que justifica essa longa introdução. A forma como a polarização esquerda X direita na política brasileira, nos dias atuais, vem afetando o fandom de literatura fantástica nacional, dentro e fora das redes sociais, me evoca cada vez com mais intensidade o fantasma do Puppygate. Os grupos fechados em torno de uma ideologia – e a hostilidade entre eles – já são uma realidade. As “listas negras” de autores já existem, de lado a lado. Como acompanhei nas listas de bate-papo da SFWA, as agressões mútuas e a quebra de laços entre autores que já conviveram amistosamente já acontecem com frequência, por razões alheias à literatura em torno da qual um amor em comum os unia.
     Há algum tempo atrás, questionei no Facebook um autor nacional acerca do episódio do Hugo 2015. Sabendo de sua orientação esquerdista, minha intenção era colher elementos acerca de sua visão do caso, como observador que era, assim como eu. De forma inesperada (mas nem tanto), ele ficou muito irritado, considerando impertinência meus simples e muito honestos questionamentos, e rompeu seus laços virtuais com minha pessoa. Quem me conhece sabe que estou pouco me lixando para esse tipo de coisa. Sou muito aberto a conhecer gente boa, e tenho uma quantidade suficiente de gente assim no meu círculo de amizades para me importar com esses pobres de espírito que, ainda que se digam “defensores da democracia”, são na vida incapazes de conviver com o contraditório. Mesmo gente muito ilustrada, muito competente, cai vertiginosamente no meu conceito quando age assim. Prefiro omitir, no momento, o rótulo que passo a dedicar a esses elementos. Só o que me irrita, na verdade, é quando essa gente começa a falar mal pelas costas, inclusive caluniando, como se diminuir o novo desafeto servisse para diminuir sua vergonha pela própria incapacidade para o debate. Estou sempre aberto a discutir com argumentos, mas a covardia dos que acusam sem dar a oportunidade da réplica me decepciona e irrita.
     Isso aconteceu com aquele “luminar” que citei acima, quando foi a um podcast falar sobre o episódio dos puppies e ME criticou duramente, dizendo mentiras do tipo “ele mal sabe falar inglês” e “soube dos acontecimentos do Hugo 2015 através de mim”. Claro que não citou meu nome, por saber das possíveis consequências – nem todo covarde é burro -, mas prometeu revelar em off aos interessados. Mas olhem... passou.
     No entanto, esse fantasma reaparece agora, quando um amigo do Facebook manifesta sua tristeza por ter perdido a amizade virtual (coisa doida dos dias atuais) de uma pessoa que respeitava, por razões ideológicas. Simultaneamente, eu mesmo tenho sido vítima, uma vez mais, da mesma atitude covarde dos que se afastam e começam a caluniar pelas costas, estimulados por um outro tipo de pusilânime, aquele que continua fingindo ser seu amigo, mas coloca com alegria lenha na fogueira onde o outro queima um judas com a sua estampa.
     Reforçando, não me interessa nenhuma reaproximação com esse tipo de pobres de espírito. O que me entristece – e preocupa – como autor de ficção científica e fantasia, é que temos no Brasil um mercado já frágil, um preconceito gigantesco do mainstream contra nossa “subliteratura predileta”, e em vez de nos unirmos, mantendo a questão política à parte, nos precipitamos no mesmo erro dos americanos, que, diferente de nós, possuem um navio bem mais forte e capacitado para sobrepujar as tempestades.
     Preocupado com isso, entrei em contato com um dos meus amigos da SFWA, um escritor americano que foi finalista do Hugo 2015 e foi pego no fogo cruzado, sem ter tido a menor participação nas disputas políticas que explodiram. Perguntei a ele, agora que a poeira baixou, se ficaram sequelas do Puppygate no mercado americano, e como estava o ambiente do fandom estadunidense. Postarei abaixo sua resposta original, e em seguida minha tradução. Peço, desde já, desculpas por meus eventuais erros. Afinal, como já disseram por aí, apesar de conversar regularmente com o pessoal da SFWA eu sou o cara que “mal sabe falar inglês”. Então lá vai:
The 2015 Hugo controversy exposed a fracture that's only become more permanent over the past three years. Now there are two opposing camps, and they don't talk to one another. The "establishment" blacklists any authors identified as Christian, Conservative and/or Republican. The dissidents have their own networks of publishers and outlets. It's like apartheid in South Africa.
I'm not an active writer any more. After working as managing editor at the local newspaper for three years, I had the opportunity to buy out the owner at the start of this year. So I am self-employed, and loving it. It took such a stroke of luck as a sign from God that I have been wasting my time writing speculative fiction.
I don't miss it at all, and now I'm ashamed I had anything to do with those assholes and heathens in the past. I'm much happier. If I ever write anything in the future, I will use a pen name.
I can't imagine Brazil would ever get as messed up as the US. We suffer because of our prosperity. There are a lot of people who are only Americans because they want to make a fast buck. They are stupid, greedy, and have no love for their country. I'm sure Brazilians have a greater sense of patriotism and self-esteem. It would be hard not to.
Thankfully I live in Texas, where the traditional values of the U.S. still hold sway. So its more comfortable.
The establish of s-f, like the establishment in the nation as a whole, are sanctimonious snobs who sneer at anyone who still believes in God and Country. S-F is just a lot farther along. I doubt it could ever get that bad in Brazil.
Sorry for such a rant. I grew up loving science fiction. Now I don't even read it any more. Too many bad associations.
You struck a nerve there, I don't even THINK about writing science fiction any more. I so much enjoy owning and operating my own newspaper.
Tradução:
“A controvérsia envolvendo o Hugo 2015 expôs uma ruptura que só se tornou mais permanente ao longo dos últimos três anos. Agora há dois grupos opositores, que não falam um com o outro. O “sistema” cria uma lista negra de quaisquer autores identificados como cristãos, conservadores e/ou Republicanos. Os dissidentes têm sua própria rede de editores e comercialização. É semelhante ao Apartheid na África do Sul.
Não sou mais um escritor ativo. Após trabalhar como editor do jornal local por três anos, tive a oportunidade de comprar o jornal no início deste ano.  Então sou autônomo, e estou adorando. Considero um golpe de sorte, e um sinal de Deus de que estava desperdiçando meu tempo escrevendo ficção especulativa.
Não sinto a menor falta, e agora me envergonho de ter tido algo a ver com aqueles idiotas e pagãos no passado. Estou muito mais feliz. Se eu por acaso voltar a escrever algo no futuro, vou usar pseudônimo.
Não consigo imaginar que o Brasil chegue a ficar arruinado como os Estados Unidos. Sofremos por causa da nossa prosperidade. Há muita gente que só é Americana porque quer fazer um pé-de-meia rápido. São estúpidos, gananciosos e não amam seu país. Tenho certeza de que os brasileiros têm um grande senso de patriotismo e autoestima. Seria difícil não terem.
Felizmente vivo no Texas, onde os valores tradicionais dos Estados Unidos ainda têm peso. Então é mais confortável.
O “sistema” da ficção científica, como o do país como um todo, é composto de esnobes hipócritas que zombam de qualquer um que ainda creia em Deus ou no país. A ficção científica apenas foi ainda mais longe. Eu duvido que possa ficar tão ruim no Brasil.
Perdoe meu discurso inflamado. Eu cresci amando a ficção científica. Agora eu nem leio mais. Muitas associações ruins.
Você cutucou um nervinho aí, eu sequer PENSO mais em escrever ficção científica. Adoro gerenciar e atuar no meu próprio jornal.”
     Como se vê, até lá a briga ideológica causou suas baixas. É trágico ver um bom escritor, finalista do Hugo, dizer essas palavras, não? Não penso que eu precise comentar muito mais. Acho que já cumpri meu papel, mostrando o que vislumbro para o futuro ao seguirmos o rumo que tomamos atualmente. Aprender com os erros do passado – mesmo os alheios – costuma ser um conselho sábio para os que não querem passar pelos mesmos sofrimentos.
     A visão do meu amigo americano a respeito de nós, brasileiros, me envergonha um pouco. Temo que, no final das contas, ele esteja nos superestimando. Fica a minha certeza de que pensamentos e ideologias desconhecem idiomas, e aqueles que os acolhem, em qualquer lugar do mundo, estão fadados a pagar o mesmo preço. Só que, dependendo da capacidade de resiliência de cada um, o fim pode acabar sendo trágico em alguns casos. Ouviu, Brasil?

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